Preparados para abandonar a renda fixa e ir para a renda variável?

A gestora de ativos Alaska, uma das mais badaladas do mercado em parte pelo ativismo social de um de seus sócios, Henrique Bredda, costuma disponibilizar ao público cartas semestrais com conteúdos bem interessantes ao investidor em geral, independentemente de serem cotistas ou não de seus fundos de investimentos.

Compartilho abaixo o primeiro tópico da carta do 1º semestre de 2019, onde os gestores mostram as semelhanças entre começar a investir em ações e ser pai de primeira viagem.

Emoções, sejam positivas ou negativas são partilhadas pelos investidores e pais novatos, e costumam gerar sentimentos consequentes que serão fundamentais para o sucesso do "empreendimento".

É um texto bem interessante para as pessoas que sempre investiram na renda fixa e estão agora, nesse novo piso mundial de juros reais, avaliando que a migração de parte de seus recursos para a renda variável pode ser uma melhor alternativa do que mantê-los vinculados a remunerações mais baixas.


Se você é um investidor de renda fixa e pensa em ir para a renda variável, gaste 5 minutos lendo esse texto. Pode ajudar muito seu progresso e antecipar sua independência financeira.



"O COMEÇO


Começar a investir em ações desperta as emoções mais viscerais e primitivas de uma pessoa. É semelhante ao que as mães e pais de primeira viagem sentem. É uma montanha russa emocional. Se um dia você acha que vai morrer louco pela privação de sono, noutro você fica em estado de graça com seu filho ninando em seus braços, momentos tranquilos nos primeiros meses do bebê em casa são raros.

Choros, fraldas, amamentação, limpeza do cordão umbilical, febres e medo quanto à continuidade da respiração enquanto dorme são neuroses análogas ao que o investidor iniciante tem quando imagina o tamanho do estrago que notícias apocalípticas podem causar em suas ações. Medos quanto ao que o Trump ou o Bolsonaro tweetam e seus possíveis impactos sangrentos no portfólio, medo quanto ao tamanho do impacto na ação que a frustração do próximo resultado trimestral terá.

Enfim, o investidor passa a sofrer os mesmos efeitos colaterais dos pais de primeira viagem: mudanças repentinas de humor, cansaço, alteração do apetite, privação de sono, crises agudas de ansiedade. No entanto, desde que os pais e mães insistam no plano inicial de criar e educar seus filhos (normalmente sim, graças a Deus!), certas coisas típicas começam a acontecer.

Os filhos passam pelo terceiro mês e as cólicas começam a cessar, é um dos primeiros grandes marcos e melhorias na qualidade de vida dos pais. Seria como os investidores iniciantes começando a entender que existem notícias que são ruídos e outras que são sinais. A imensa maioria são ruídos que servem apenas para sacudir os preços e gerar cliques/assinaturas para quem as produziu, não indicam mudanças nos fundamentos das empresas que estão investidos. Mas, como pais de primeira viagem ou investidores iniciantes, há muito aprendizado pela frente.

Uma forma de cortar caminho, tanto para investidores neófitos quanto para pais de primeira viagem, é se apoiar na sabedoria de quem já seguiu esses mesmos passos, pois aprender cometendo erros pode ser muito doloroso e só alimenta a insegurança inerente a ambos assuntos. Para encurtar esse sofrimento, não só aceite, mas procure ajuda dos mais experientes que sejam verdadeiramente bem intencionados. Converse com os mais velhos, leia sobre os assuntos, há uma literatura extensa disponível que permitirá o aprendizado com erros dos outros.

O tempo inevitavelmente passará e os medos aos poucos se dissiparão. Os pais começam a entender o choro de seus filhos, facilmente separando o que é fome, sono, somente uma “manha” inofensiva, do que é realmente grave. O investidor passa a entender que uma subida repentina com base em notícia especulativa pode ser apenas um fogo de palha ou que a tela toda avermelhada do monitor não passa de uma correção típica e corriqueira, não um sinal inequívoco do Armagedon.

Cada vez ficará mais claro que ambas as tarefas terão duração para a vida toda. As horas de estudo investidos na educação dos filhos (ou na gestão dos investimentos) não trarão efeitos imediatos. Pelo contrário, ensinar valores sólidos, desenvolver virtudes e investir em conhecimento acadêmico não tornará o seu filho e filha um gênio ou um sábio educado amanhã.

Na verdade, nada do que você fizer de extraordinário e profundamente bom para o seu filho hoje provocará um salto repentino de comportamento amanhã. A disciplina, dedicação e amor contínuos dos pais trarão impactos no longo prazo, não na semana seguinte. Nada de relevante acontece do dia para a noite".


Na sequência, os gestores do Alaska mostram como a história da bolsa brasileira é recente, e, em certo sentido, pode ser comparada ao investidor neófito. Uma dessas maiores expressões é o viés de recência, ou seja,  "a atribuição de pesos desproporcionalmente grandes para eventos recentes no processo de tomada de decisões".

Uma das formas de se defender desse e de outros vieses, é ter um horizonte de investimento mais dilatado, não atribuindo pesos excessivos a eventos recentes que não alteram a perspectiva de longo prazo dos ativos. Ao final da carta, vem a conclusão.


"CONSISTÊNCIA, PACIÊNCIA E VALUE INVESTING

Qualquer empreitada que almeja resultados realmente grandiosos envolve uma liturgia inevitável; não é possível se tornar campeão olímpico em 20 dias, muito menos gestar um filho em um mês ou educá-lo completamente em apenas cinco anos. É necessário um processo de evolução consistente, coerente e muito tempo de maturação.

No início da jornada, mesmo ancorados em leituras, estudos e orientações sobre as possíveis dificuldades ao longo do processo, vemos que a teoria não é substituta para a prática. Somos atingidos pelo sentimento de descontrole sobre as variáveis, submetendo-nos a picos de ansiedade que nos compelem a ações (na grande maioria das vezes) irracionais.

O aprendizado pode até ser lento, mas é inevitável, e consultar aqueles mais velhos que já passaram pelas mesmas situações várias e várias vezes pode dar uma vantagem em como prosseguir no caminho. Quanto menos peso dermos para “atalhos”, quanto menos tempo perdermos buscando “balas de prata”, mais tempo nos dedicaremos ao que realmente importa".


Ou seja, a educação é fundamental para sermos bons investidores. O vínculo ao analfabetismo financeiro é uma barreira poderosa para que atinjamos nossa independência financeira, meta de muitos leitores desse blog. Crie meios que lhe ajudem a aproveitar o tempo para ler bons livros. Mas, como a carta mostra, não se fie totalmente à teoria. Comece a investir o quanto antes, mesmo que seja montando uma carteira muito simples de investimentos, e aprenda sempre durante todo o processo.

Para ver a carta completa do Alaska, clique aqui.



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