A relação entre o PIB e a bolsa brasileira existe?

Ontem tivemos, dentro das rotinas econômicas da mídia, a publicação do crescimento trimestral do PIB brasileiro.

Novamente, várias notícias o relacionam a um sentimento de otimismo ou pessimismo no Ibovespa, o principal índice de ativos da bolsa brasileira.

Mas será que tal relação existe? Ou é, ao menos, tão direta assim?

Você compra ou vende ações e fundos após a notícia de alta ou queda no PIB brasileiro? Veja porque isso pode não ser sensato.

O que impulsiona o PIB, impulsiona a bolsa de valores?


PIB: O que é?


PIB é o acrônimo para "Produto Interno Bruto" e pode ser entendido, simplificadamente, como o total de tudo o que é produzido (bens e serviços finais) em uma determinada região (nesse texto, o Brasil). Em outras palavras, é o conjunto gerado de riquezas que engloba toda a cadeia produtiva brasileira.

Nesse sentido, ele é normalmente utilizado como um indicador confiável da atividade econômica do país.

PIB: como é calculado?


É senso comum dizer que o PIB é calculado a partir da atividade de todos os agentes econômicos brasileiros. Sob essa ótica, percebermos uma relação direta do PIB com o vigor econômico, ou seja, com o crescimento das empresas. Mas existem outros fatores a serem considerados.

O PIB também pode crescer em função do investimento e despesas do governo. No final do governo Lula e durante o governo Dilma, o Brasil cresceu impulsionado pelos gastos públicos. Algo que não se mostrou sustentável, levando o Brasil para a pior recessão da história.

O governo também pode aumentar a emissão da moeda para se auto-financiar, o que gera efeitos inflacionários na economia que impulsionarão o crescimento do PIB. É o famoso aumento da oferta monetária.

Fiquemos por enquanto com essas informações (estou me educando para escrever menos a cada post...) e passemos à frente. Se você desejar se aprofundar no tema, veja aqui detalhes sobre o conceito de PIB e como ele se relaciona com a atividade do governo.

Influência do PIB e bolsa de valores


Através desses conceitos simplificados, vemos que há formas de "inflar" o Produto Interno Bruto sem que haja ganhos diretos para as empresas e fundos imobiliários que compõem o índice da bolsa de valores, como o IBOV ou o IFIX.

Assim, temos a primeira situação onde podemos dizer que o crescimento do PIB não pode ser completamente relacionado à atividade econômica das empresas, e concluir que não há uma relação de causa e consequência direta entre ambos indicadores.

Uma solução seria "quebrar" o número do PIB em várias partes: essa análise seria mais correta para buscar uma correlação. Mas para a imprensa e seus "analistas", o número "cheio" já é suficiente para encher a mídia de bobagens. E são elas que influenciarão, ao final, o investidor de renda variável.

O livre mercado pode fazer a economia crescer e a bolsa subir?


A resposta simples é depende. Vamos sair do senso comum aqui (cuja resposta da pergunta acima é "sim" em ambos os casos) e responder algo não completamente compreendido: o livre mercado, a competição e a disrupção tecnológica podem, na verdade, fazer o PIB crescer e o índice da bolsa de valores cair. Como?

No artigo que escrevi sobre as disrupturas tecnológicas que podem influenciar determinadas empresas, comentei que grandes empresas, como o Itaú, Kroton, Eztec e M. Dias Branco ficarão para trás se não se reinventarem.

A nova realidade que as ameaçam, sejam fintechs, a evolução tecnológica ou novos hábitos do consumidor, normalmente demandam gastos mais racionais no setor. Em outras palavras, essas grandes empresas vão perder mercado se não diminuírem sua margem de lucro.

Até para quem não conhece análise fundamentalista, é possível inferir que menores lucros gerarão um reajuste no preço das ações dessas empresas na bolsa de valores, correto? E isso ocorre apesar do fato de que o mercado na totalidade está sendo tomado por outras empresas menores, que não estão listadas na bolsa de valores.

Poderemos então, ter um período de grande aumento na competição (ações do Ministério da Economia apontam para isso, se o "presidento" não atrapalhar), de crescimento geral da economia e de queda de algumas empresas na bolsa, que precisarão ajustar-se para sobreviver no mercado.

Como são empresas grandes, com alto peso na bolsa brasileira, essa queda poderá influenciar de sobremaneira o índice Ibovespa.

Temos aqui, então, uma segunda possibilidade onde o crescimento do PIB pode não se relacionar diretamente com o índice da bolsa de valores.

PIB e bolsa: o que é causa e o que é consequência


Não consigo ver resposta certa para essa questão. Acredito que pode haver os dois caminhos em determinadas épocas. E o mais difícil é checar em qual direção estamos vivendo agora.

O PIB pode ser influenciado pela Bolsa na medida em que, por falta de opções melhores no exterior, haja um excesso de entrada de capital estrangeiro produtivo no país, de forma que inicialmente infle os preços dos ativos (maior demanda, menor oferta) e, após investimentos na estrutura produtiva, as empresas estejam preparadas para entregar uma produção maior para os consumidores.

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Acredito que são ocasiões excepcionais, entretanto. O mais comum é o PIB influenciar o preço dos ativos na bolsa, mas com uma singularidade importante: essa influência age por antecipação.

Os agentes que compram e vendem as ações e cotas de fundos são movidos pelas expectativas futuras. O que vai ocorrer a curto e médio prazo já está, de certa forma, implícito nos preços atuais. Assim, a notícia fresquinha do crescimento do PIB trimestral NÃO influencia em nada as cotações na bolsa de forma definitiva.

O que pode ocorrer é uma corrida dos desavisados, influenciando a formação de preços no book de ofertas momentaneamente. Depois disso, os preços voltam à sua trajetória normal. Assim, não vejo muito sentido em comprar e vender ações ou cotas de fundos na bolsa em meio a notícias de crescimento trimestral do PIB. São textos caça-cliques, nada mais que isso.

Comportamento do índice Ibovespa e PIB brasileiro


O fato é que existem mais variáveis que influenciam o preço dos ativos brasileiros do que o PIB propriamente dito, como, por exemplo, as taxas de juros (externas e internas), nossa política (infelizmente) e os próprios balanços trimestrais das empresas, quando analisamos papéis individuais.

Veja o gráfico abaixo produzido por André Rocha no site Estrategista.net.

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O gráfico captura os dados de valor de mercado de todas as companhias da bolsa (uma métrica mais completa que o índice Ibovespa) e o compara com o valor do PIB brasileiro a preços de 2016 (não encontrei dados mais novos), desde 2000.

Veja que não há uma relação direta entre ambos indicadores. Não há meios de obter qualquer correlação na linha amarela, que relaciona o valor de mercado das companhias com o PIB. Logo, é impossível antecipar o que ocorrerá com os preços das ações, dado o resultado do PIB.

A mensagem é que nos atenhamos muito mais a outros sinais e indicadores para estimar o curso futuro do Ibovespa do que uma mera divulgação de dados do PIB, tornando-nos imunes às notícias caças-clicks dessa época, concordam?



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