100 dias de governo Bolsonaro, 100mil pontos no IBOV e novos passos na carteira de investimentos

Como comentei em artigos durante a eleição do ano passado, nunca fui fã ou apoiador do Bolsonaro. Meu voto no primeiro turno foi completo para o Partido Novo, que poderia ter tido uma votação muito maior caso uma boa parte de seu eleitorado original não entrasse naquela ansiedade generalizada de querer terminar tudo no primeiro turno (o que, ao final, não adiantou nada...). Sinto apenas que algumas pessoas perceberam o papel de maria-vai-com-as-outras que desempenharam.

O objetivo dessa postagem é comentar alguns aspectos dos primeiros 100 dias do governo Bolsonaro, seus principais avanços e decepções, o recorde nominal em pontos da bolsa brasileira da semana passada (que durou pouco...) e o prosseguimento de meu plano na alocação de ativos de minha carteira de investimentos, que tracei em uma postagem logo após o primeiro turno da eleição do ano passado.



Os primeiros 100 dias do governo Bolsonaro



No segundo turno, entretanto, tomei partido ao lado do atual presidente. Afinal, permitir a volta da esquerda que destruiu o Brasil seria a pior das alternativas. Confesso que na época fiquei mais inclinado a acreditar em sua boa índole e que meu voto não seria apenas anti-PT, mas sim um sinal de apoio e confiança que o país mudaria exponencialmente para melhor. Hoje, em função do amadorismo de uma certa ala do governo, já não tenho tanta certeza.

A herança maldita exige mais do que uma mera melhoria


O uso da palavra "exponencialmente" no parágrafo anterior tem uma razão. Tornar o país melhor, dado o buraco que estamos não é algo tão difícil. Afinal, os ditos progressistas reescreveram a moral e a ética desse país, onde a responsabilidade pessoal deu lugar à tirania dos direitos adquiridos. Desvirtuaram o modelo mental de milhões de pessoas no culto a um ex-presidente corrupto que instaurou uma cleptocracia no país. E, em meio à sua incompetência e má-fé, deixaram o país à penúria. Veja abaixo alguns textos que escrevi na época.


Noto hoje muitas entrevistas e comentários de "jornalistas" que perseguem a ideia de que o passado é passado e agora temos que pensar no futuro. Meia verdade. Concordo que pensarmos no futuro é o essencial, mas devemos, mesmo assim, lembrar exatamente como chegamos a essa situação para não repetirmos os mesmos erros.

Nessa última eleição, o PT usou massivamente artimanhas e camuflagens para contar uma história diferente, culpando o PMDB (escolhido pelo próprio PT como parceiro de chapa) pelas mazelas do país. Mentira: o Temer ficou, de fato, muito aquém do que esperávamos, mas entregou um país bem melhor do que recebeu, independentemente de todas as acusações de corrupção. Situação dramática ocorreria se a Dilma, a pior presidente que já tivemos no posto máximo do país, tivesse permanecido no cargo.

Feita a lembrança, não se espera que o governo Bolsonaro tenha um desempenho "temeriano"; isso seria um acinte a todas expectativas que o país depositou em sua eleição. Sua administração precisa muito mais que isso. Ela precisa mudar a mentalidade da sociedade do que é preciso fazer realmente nesse país. Quanto a isso, ele tem mostrado, nesses primeiros 100 dias, erros e acertos.

Dois governos: técnico e ideológico?

Não. Apesar de eu ser crítico em vários pontos do governo Bolsonaro, não compro essa tese. A administração pragmática de um governo não pode existir sem seus embates políticos-ideológicos. Peguemos a reforma da previdência, por exemplo. Cada vez mais compreendida pela sociedade como uma reforma que retira privilégios dos mais abastados e cria condições para servir melhor aos mais necessitados no futuro, já é constantemente boicotada pela extrema-esquerda. Como retirar da discussão o fato que o objetivo de partidos como PT, PSOL, PCdoB e PDT é criar uma situação de caos no país para terem chances de serem eleitos no próximo pleito, dado nosso eleitorado polarizado?

A discussão técnica acaba levando a confrontos morais e éticos que precisam ser levados à sociedade. Discussões com vieses políticos e ideológicos, portanto, permeiam esse processo. As formas de convencer nossos legisladores a votarem em reformas liberais envolvem, além da racionalidade, uma luta política de valores e visões de mundo que afaste a estratégia dos grupos que destruíram o país. Portanto, a ideologia deve fazer parte das discussões políticas e administrativas do governo.

O que discordo, entretanto, é da forma como certas pessoas e perfis, que antes admirava, vem agindo nas redes sociais contra indivíduos que mantêm uma posição construtivamente crítica e independente do governo. A crítica da crítica a alguns atos do governo não vem baseada em racionalidade ou argumentação, mas sim sob assassinatos de reputações.

Uma das pessoas em evidência que tem me decepcionado é o Olavo de Carvalho. Autor de livros brilhantes e textos magníficos, ele vem agindo como um desagregador de um grupo de pessoas que possuem a real capacidade de transformar esse país para melhor. Meu comentário não se origina do fato dele não concordar com algumas ações de pessoas do governo, mas sim da FORMA como vem se expressando nas redes sociais, embora talvez seja o seu método para atingir objetivos escusos.

Vê a todo momento conspirações contra o presidente, inclusive de políticos do PSL quando criticou fortemente a visita à China de alguns deputados do partido. Entretanto, o próprio Bolsonaro - até então imune às críticas do filósofo, disse que a China é o maior parceiro do Brasil e que fará uma visita ao país até o final desse ano. O que fará Olavo na ocasião? O presidente conspira contra o próprio presidente? Ele também será tachado de comunista?

Olavo (e seus olavetes, claro... o que o guru fala é repetido ad nauseam por milhões de seguidores...) cria condições para que assassinatos de reputações sejam feitas constantemente nas redes sociais, inclusive contra jornalistas conservadores como Felipe Moura Brasil e Augusto Nunes quando na ação de seus deveres jornalísticos.

Recentemente, tem interferido de forma inconsequente no Ministério de Educação, evidenciando o fato que, até agora, foi um dos poucos ministérios que não apresentaram um plano de governo. Por caprichos pessoais, procura destruir profundamente a posição do general Mourão, que foi apoiado pelo próprio Olavo antes das eleições, trazendo com ele pessoas deslumbradas com o poder, que de cima de seu novo banquinho, acham-se donos da verdade, como Felipe Martins e Eduardo Bolsonaro.

Novamente, arrepender-se, divergir e retirar apoio é algo lícito, quando feito com racionalidade e civilidade. Mas o filósofo e seus asseclas usam de humilhações para assassinar reputações enquanto se faz vítima de uma conspiração internacional. É verdade que esse já era seu modus operandi há algum tempo, mas, se antes sua metralhadora era dirigida a jornalistas e outros intelectuais, agora ela atinge o núcleo do governo. Qual a finalidade de tais atos?

O fato é que sua turba de seguidores não aceitam mais a divergência. Combatem qualquer crítica à família Bolsonaro com uma ferocidade que lembra a extrema-esquerda com interesses opostos. Atribui o rótulo de comunista a liberais autênticos e conservadores que não pactuam com alguns de seus pensamentos. Apesar da ideologia ser importante, como comentei acima, esses ataques fogem extremamente da mínima racionalidade. E vejo que estamos perdendo isso no debate. Afinal, o importante está sendo combater a "causa", não importa como. Não parece o que sempre vimos nos últimos anos com sinal contrário?

Se toda a energia de seus seguidores forem canalizadas para bons debates como o grupo de deputados do Partido Novo e alguns congressistas estão realizando, o país tende a ganhar muito. O conhecimento teórico que liberais e conservadores possuem é fantástico e essencial para aprovarmos as mudanças que o país necessita - notadamente a Reforma da Previdência nesse semestre, mas ele precisa ser usado de forma inteligente. A influência que tais pessoas poderiam ter na sociedade será determinante para nosso futuro como país. Mas do jeito que está sendo feito, a tendência é de cisão, abrindo portas para a perda do poder no futuro para as mesmas pessoas que destruíram recentemente o Brasil.

Lembro que majoritariamente, não foram os ideólogos conservadores que elegeram Bolsonaro, e sim as pessoas que não desejavam mais o PT. E tais pessoas podem facilmente ser encantadas com uma terceira via no futuro (Dória?) se não soubermos lidar racionalmente com essa situação. Essa turminha está meio deslumbrada acreditando que possui o monopólio do apoio popular. Vão acabar quebrando a cara se não alterar sua estratégia.

Falemos agora rapidamente das perspectivas econômicas (a área onde estou mais otimista com o governo, caso esse pessoalzinho pare de atrapalhar) e, posteriormente, como isso afeta a alocação de ativos na minha carteira de investimentos.

O recorde nominal do índice Ibovespa


Sou, atualmente, otimista com o mercado em renda variável (apesar da profunda queda da semana passada) não necessariamente pela perspectiva de grandes mudanças no país, mas sim como um retorno à média reagindo ao grande salto para trás que tivemos nos últimos anos. Mesmo aos 100mil pontos, ainda estamos muito atrás se considerarmos a pontuação em dólar (comparação não muito boa) ou pela correção inflacionária (mais razoável).

Infelizmente, ainda não temos nenhuma realização significativa. A Reforma da Previdência, embora muito bem escrita, precisa da aprovação do Congresso e não sabemos o quanto ela será dilacerada, principalmente com a decepção da reforma militar apresentada e com a bagunça gerada pelos desentendimentos entre os poderes na semana passada.

Apesar de entender que o Ministério da Economia tem estado focado nas alterações da previdência social, apresentou poucas medidas que significariam uma retomada do crescimento econômico. Destaco aqui positivamente as privatizações já realizadas dos aeroportos e as futuras já anunciadas e algumas leis contra a burocratização. Acredito porém que, em virtude de seus excelentes quadros, ainda virá muita coisa boa por aí se a equipe for mantida.

A Administração Federal tem feito pouco também. Apesar de cortar alguns cargos aqui e ali, o núcleo político ainda mostra que tem muito pouco de liberal. Para exemplificar, veja aqui o que o governo de Romeu Zema (apesar de alguns deslizes) fez nos seus primeiros dias de administração. De qualquer forma, nunca esperava que o Bolsonaro fosse, de fato, uma pessoa que promoveria uma grande diminuição do Estado e eliminação de privilégios. Porém receio que minha opinião ainda fora pouco pessimista. Hoje, tenho colocado em dúvida inclusive seu apoio à reforma da previdência, que não passa de alguns tuítes em redes sociais, mas com uma falta de operacionalização muito grande no corpo a corpo, necessário para a política.

Nunca levei muito a sério essa história de "nova" política com a qual ele foi eleito. Se for para fazermos uma dicotomia adequada, dividamos a política em "boa" ou "má", não como "nova" ou "velha". De qualquer forma, suas rusgas dos últimos dias com o presidente da câmara, potencializadas novamente pelos seus filhos deslumbrados, demonstram que ele tem preferido uma "não" política. Espero que isso não seja uma forma de inviabilizar propositalmente as reformas necessárias que, no fundo, ele não acredita. Não adiantaria ele posteriormente tentar eximir-se da responsabilidade com seus tuítes ("olha, eu apoiava, mas o congresso...): seu governo vai ter acabado muito antes dos 4 anos. Sobre o Bolsonaro, já emiti algumas opiniões em artigos durante a eleição do ano passado que copio abaixo.


A alta na renda variável provém, principalmente, do acrônimo TINA (There is no alternative). Não sei se os leitores já se acostumaram com a ideia de que o Boletim Focus está prevendo um juro real líquido no final de 2020 de pouco mais de 2,2%, com uma previsão de SELIC de 7,50% (tendendo a baixar). Porém, uma vez que a inflação continua abaixo da meta e a atividade econômica não deslancha, esse número deve convergir a cada nova previsão para os padrões atuais.

Se na próxima reunião do COPOM o juro cair 0,25%, como vem prevendo alguns analistas em virtude da situação interna e externa (FED mais comportado), nosso juro real líquido ficará no máximo em torno de 1,31% ao ano. Coisa de país desenvolvido. Nesse caso, temos que buscar investimentos mais arriscados na renda variável, assim como as empresas devem procurar fazer dinheiro através da produção, e não por investimentos em renda fixa, beneficiando-se também da alavancagem de empréstimos a juros baixos.

Considerando ainda que o fluxo de capital estrangeiro nesse ano continua baixo, entendo que essa alta na bolsa ainda não reflete quaisquer ações do governo, mas sim um ajuste natural beneficiado pela queda dos juros reais pagos na renda fixa. Assim, ela pode tanto explodir em alguns meses, caso as medidas planejadas por Paulo Guedes e equipe tornarem-se reais, como cair levemente com possíveis decepções. Exceto em função de acontecimentos mais drásticos, não vejo como cair muito nos próximos meses. Ou seja, a assimetria é favorável para estar otimista na renda variável.

As mudanças em minha carteira de investimentos


Antes do segundo turno da eleição do ano passado, escrevi o que faria com meus investimentos caso Bolsonaro ou Haddad vencesse o pleito final. O texto está logo abaixo para quem quiser conferir.


Nessa postagem comentei que a expectativa que o mercado financeiro teria com um novo governo Bolsonaro poderia estar aquém do esperado nos dois primeiros anos, o que reflete um pouco as dificuldades já encontradas nesses primeiros 100 dias. E pelos acontecimentos da semana passada, a tendência é piorar...

No aspecto do timing da euforia inicial, não fui muito preciso na minha avaliação do ano passado. Eu acreditava que o Ibovespa iria passar dos 100.000 pontos rapidamente no início do ano. Porém, as cabeçadas e mini-crises do governo, criadas por eles mesmos, ajudaram a frear o tom positivo dos mercados. Com os indicadores mostrando um baixo crescimento da economia, reavaliei essa subida do índice. Como comentei, ele está muito mais ligado a um retorno à media e à diminuição da taxa de juro real (principalmente em virtude das expectativas de inflação e crescimento econômico) do que especificamente a um entusiasmo com o novo governo.

No ano passado eu pensava em começar a baixar a alocação de renda variável após o índice subir rapidamente no início do governo, denotando uma euforia irracional, o que não ocorreu. Mesmo que isso tenha ocorrido 3 meses depois, mudei minha percepção avaliando que a subida não se trata da euforia propriamente dita. Assim, decidi por enquanto, manter minha alocação nesse pilar em torno de 30%, pois acredito que não há muito mais margens para o IBOV cair muito além disso com as condições atuais.

Nesses três meses, fiz alguns ajustes pontuais vendendo parte de papéis que se valorizaram demais (ENBR3, PETR4, QUAL3, CSAN3, SUZB3) e reforçando os percentuais dos ativos que não performaram muito bem (B3SA3, TUPY3, BBSE3). Nos FIIs, estou participando apenas das novas emissões, que ocorrem com desconto para cotistas (GGRC11, XPML11, JRDM11 e em Abril, RBRR11).

Mesmo que as reformas não avancem de uma forma desejada (mudanças na reforma da previdência, bedelho do STF em privatizações, etc), devemos no máximo ter uma queda de mais uns 10% na bolsa brasileira. Além disso, apenas se ocorrer fatos não esperados, como uma queda do Bolsonaro gerando força para a esquerda ou uma crise mundial mais grave.

Já se as reformas forem integralmente aprovadas e o governo tenha sucesso nas privatizações e desburocratização do país, devemos ter um belo salto à frente, principalmente com a entrada do capital estrangeiro no país (mantendo-se as CNTPs da economia mundial). Logo, o perfil de risco de exposição na bolsa é bem favorável. Se eu tivesse em uma fase mais jovem, de acumulação de capital e com muito tempo de recuperação de possíveis perdas à frente, eu estaria ainda mais exposto à renda variável, provavelmente com mais de 50% da carteira de investimentos alocadas nesse pilar.

Algo que também tenho feito nos últimos meses é realocar parte da carteira para fundos de ações de gestores que entregam bons resultados dentro de um certo histórico temporal. Nesses fundos, há exposições em mercados externos, moedas, juros futuros e até alavancagens. Pretendo ao final desse ano, estar com 30% de minha carteira de investimentos, incluindo os PGBLs com gestão terceirizada. Esse é um movimento que expliquei no artigo "Fechamento anual da planilha do plano patrimonial, da TNRP e algumas mudanças para o futuro". Para esses recursos, tenho vendido parte da renda fixa de longo prazo que se valorizou muito nesse ano.

Palavras finais




Enfim, apesar de meu otimismo com o governo estar em queda desde o final do ano passado, acredito que o tom para o mercado de renda variável é mais positivo do que negativo, caso não ocorram grandes mudanças no governo ou na economia mundial. Dentro do buraco que estamos, é mais complicado cavar mais do que escalar, mesmo que vagarosamente, suas paredes. Precisamos de pouco para subir e muito para cair mais. Assimetria, portanto, positiva.


Concordo que a semana passada foi péssima para uma perspectiva positiva. Os desafios do governo são maiores do que muitos esperavam, e a rusga interna que se desenha, entre os fundamentalistas  liderados pelo Olavo e a ala militar, parece que é séria. Torcemos por um final positivo para o país sair bem dessa situação.

E os leitores, o que acham dessa situação política? Quais os movimentos mais significativos que estão operando no começo desse ano?


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No mundo financeiro, pense racionalmente e não invista na poupança. Já escrevi outros artigos mostrando algumas estratégias de operação de meu portfólio. Além do artigo comentado sobre alocação de ativos, já falei sobre contratos futuros de dólar , corretoras de valores,  sobre o que é melhor entre a renda fixa ou renda variável e  como calcular seu sucesso financeiro através da TNRP.

Há mais artigos sobre investimentos e liberdade financeira nessa página
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