Volatilidade significa riscos para sua carteira de investimentos?




Você mede risco através de indicadores de volatilidade, como o beta?

Será que vale a pena perder tempo com esses ou outros termos técnicos do mercado financeiro?


Esses dias me questionaram qual o beta da minha carteira. Achei a princípio, a pergunta curiosa, pois ela veio de uma pessoa que ainda possui um longo caminho em sua jornada até a independência financeira, apesar de estar no mercado há tempo. Fui sincero com ela e disse que não faço a menor ideia, além de sugerir que ela se preocupasse com outros fatores muito mais importantes.

Em seguida a curiosidade passou ao meu interlocutor: "Mas você não avalia o risco de sua carteira de investimentos? Isso não é importante para sua estratégia de alocação de ativos?". Sim, equilibrar os riscos é fundamental, respondi, mas não penso que o indicador beta nos diz algo sobre riscos. Ele somente nos mostra a volatilidade de um papel. Ambos os termos não são a mesma coisa, apesar da mistura confusa que muitos analistas fazem no mercado.

A fim de esclarecer minha posição de forma geral, comento nesse texto sobre meus pensamentos sobre risco e volatilidade, além de apontar qual seria o aspecto principal para uma estratégia vencedora no mercado.

Volatilidade e beta não medem riscos


Volatilidade baseia-se apenas na variação de um ativo em comparação a um índice padrão do mercado. Apenas isso. Para as ações brasileiras, o indicador utilizado é o IBOV. Assim, se uma ação específica variou acima do IBOV possuem um beta maior do que 1 e vice-versa. "Dizem" que ações com um beta acima de 1 são mais arriscadas. Eu, particularmente, acho uma grande bobagem.




Primeiro, porque a medida de volatilidade baseia-se em um histórico. É possível que você já tenha lido em prospectos de fundos de investimentos que "a rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura". Por que com a volatilidade seria diferente? Na postagem anterior, comentei que a Eletropaulo subiu 91% no mês passado, fato que gerou rebalanceamentos na minha estratégia de alocação de ativos. Dona até então de betas comportados, nesse mês o indicador foi às nuvens! Podemos até debater se esse crescimento foi fundamentado em bases sólidas ou não, mas não podemos atribuir um aumento de risco no papel por um aumento de seu beta.

Segundo, volatilidade nunca foi, para mim ao menos, sinônimo de risco. A volatilidade pode, realmente, ter um papel importante em operações curtas ou em lançamento de opções de ações, ambas visando o curto prazo. Mas se o leitor quiser conferir no meu artigo "As vendas cobertas de ações aliadas à estratégia de alocação de ativos", poderá perceber que nunca usei o beta como um indicador, mesmo para essas operações.

No texto citado, comentei que opero opções de Petrobrás e Vale por estas ações serem mais líquidas. Como suas cotações são vinculadas ao preço de commodities e relações internacionais, elas costumam ser muito mais voláteis do que o IBOV. Nesses casos ao menos, a volatilidade pode ser considerada como uma consequência do risco de se investir em tais ações ou seus derivativos no curto prazo. Mas nunca pode ser avaliada como uma medida do risco nas operações. Ou seja, mesmo operando em prazos exíguos, existe, no meu entendimento, uma inversão de causa e consequência entre volatilidade e risco, o que faz o uso do indicador beta inócuo.

Veja porque indicadores como beta e Índice Sharpe, que medem volatilidades, não deveriam ser considerados como fatores de riscos para sua carteira de investimentos.
Conheça a parceria e descontos do blog para receber
 e enviar dinheiro ao exterior
Terceiro, se estamos falando de uma estratégia futura de independência financeira, sugiro parar de se preocupar com tolices. A volatilidade não vai alterar em nada os fundamentos de uma empresa. Seus lucros, suas dívidas, suas distribuições de dividendos e sua governança não serão impactados por tais indicadores. Grandes quedas ou valorizações poderão ser consequências de diversos fatores, mas, tenho certeza, não serão consequências de um indicador que mede a volatilidade passada. Existem momentos de grande volatilidade que são, inclusive, excelentes oportunidades para compras de boas empresas e preços justos.

Os riscos são importantes: foque naqueles que você pode evitar


Recentemente, escrevi o artigo "Investindo com segurança: os riscos que você pode (e deve) controlar". Nele, comento quais são os riscos do mercado financeiro com que, de fato, devemos nos preocupar. Esse conjunto é formado por 5 ameaças que podem prejudicar nosso acúmulo patrimonial à independência financeira e são totalmente controláveis pelo investidor. O indicador beta, claramente, não é um deles. Eu não pautaria minhas estratégias com indicadores que não representam nada para uma carteira de investimentos voltada ao longo prazo.

O leitor mais assíduo desse blog deve saber que gosto muito de livros de história. Recentemente, um deles me proporcionou um bom exemplo real para tentarmos desfazer essa confusão de riscos e volatilidade. Em "No tempo das especiarias: o império da pimenta e do açúcar", o autor narra brilhantemente a saga de nossos colonizadores portugueses e suas buscas por especiarias que possibilitaram a criação de um efêmero, porém grande e poderoso, império.

Clique para acessar o livro
Na primeira metade do século XVI, os portugueses lançaram-se pelo mar ao Oriente para comercializar diretamente com a região da Arábia e da Índia, visando evitar os altíssimos preços das especiarias obtidas pela rota do Mediterrâneo, principalmente após os otomanos conquistarem Constantinopla em 1453. As viagens eram perigosas, pois os europeus ainda não conheciam o longo caminho de circundução do território africano para chegar àqueles territórios.

Os riscos eram imensos, e os ganhos, astronômicos para quem conseguisse retornar com mercadorias. Em uma frota com várias naus, por exemplo, mesmo apenas que 1/5 delas retornassem com os porões abarrotados de especiarias e as demais afundassem, a viagem estaria paga. Veja que os riscos são claros e fáceis de serem dimensionados e poderiam ser aceitos ou não por empreendedores ou financiados pela Coroa. Mas nunca ninguém pensou em algo como "volatilidade".

Mesmo que existisse uma "média" de naufrágios mundiais e uma comparação com os desastres marítimos portugueses da época, isso não seria de alguma importância, pois cada qual teria sua situação particular e não haveria base de comparação. Além do que, a tendência seria que, conhecendo melhor os mares e desenvolvendo avanços tecnológicos, a tal "volatilidade" seria cada vez menor no futuro.

Com o tempo, os portugueses foram desviando suas rotas para o Brasil, buscando aqui um porto seguro na cultura da cana-de-açúcar. E isso ocorreu basicamente por uma relação de custo-benefício: já no final da segunda metade do século XVI, nossos colonizadores começaram a encontrar uma concorrência forte dos ingleses, franceses e holandeses, que se lançaram ao mar em busca das mesmas especiarias (a Espanha, maior potência da época, navegava do outro lado do mundo pelo acordo do Tratado de Tordesilhas).

Mudanças em decisões atuais de investimentos também se baseiam em uma relação custo-benefício. Queremos sempre pagar um preço baixo por uma ação de alto valor, com o mínimo de riscos. Tal estratégia possui relação com várias formas de análises, seja do papel quanto da conjuntura econômica local ou até internacional, em alguns casos. Mas não possui nada a ver com volatilidade e sua vinculação com riscos. Ela pode somente possuir uma pequena importância em movimentos de curto prazo, como os exemplos citados anteriormente.

Enfim, o que é mais importante?


Clique para acessar a biografia de Buffett
Sinto, através de conversas com amigos e conhecidos, que há uma necessidade muito grande, entre as pessoas, de possuir uma formação tecnicista para ser vencedor no mercado financeiro.

Pessoas adoram potencializar uma infinidade de detalhes técnicos fundamentalistas, amam indicadores de análise gráfica, apaixonam-se por índices beta, Sharpe (que é uma consequência do beta, com todos os seus defeitos) e usam Black e Scholes para operar derivativos, mesmo sabendo (ou não), que seus criadores quebraram o fundo LTCM deixando um buraco de mais de US$ 100bilhões. Não existe mágica no mercado. Nenhum indicador vai levar você, à liberdade financeira por si só.

Mas vocês sabem o que eu penso disso tudo?

Para ter sucesso na sua vida financeira, muito mais importante do que o tecnicismo, conhecimento dos mercados e indicadores é o comportamento humano, evidenciado principalmente pela serenidade, disciplina e controle emocional.

Alcançar a independência financeira, ou apenas possuir um bom conforto em alguma etapa da vida, é algo impossível sem a incorporação dessas características, que criarão naturalmente bons hábitos em nosso dia a dia. Muitas vezes - e notavelmente no sucesso do mercado financeiro, menos é mais. A simplicidade deve ser buscada em vários ramos de nossa vida, e, guardadas as devidas proporções, Buffet e Greenblatt nos mostram que, no mercado financeiro, não é diferente.



* * * * * * * * * *

Vários textos deste blog, além dos citados, mostram minhas ideias para montar uma boa carteira de investimentos, como:
Minha biografia e os 5 elementos que compõem a inteligência financeira
O que é melhor para seus investimentos? Renda fixa ou renda variável?
A importância do foco na montagem de uma carteira de investimentos

Veja mais artigos sobre investimentos e liberdade financeira nessa página
* * * * * * * * * *

Livros citados sempre são lidos e aprovados. Seus links são afiliados, isso é, eu recebo uma pequena comissão para qualquer compra no site da Amazon através desse acesso. Nada muda nos preços. É apenas um incentivo para estimular mais publicações gratuitas nesse espaço.


* * * * * * * * * *

Para receber atualizações de forma exclusiva e gratuita desse blog, clique no link abaixo:



* * * * * * * * * *

Gostou do artigo? Gostaria de dividi-lo com alguém? Compartilhe-o!

Comentários