Casos reais de rebalanceamentos pelo método de alocação de ativos

Como já comentado nesse blog, o rebalanceamento da carteira de investimentos é uma parte integral na execução do método de alocação de ativos.

Mostro nesse texto, com exemplos reais, alguns princípios que utilizo para realizar esse procedimento, incluindo comentários sobre algumas empresas e gerenciamento de riscos.


Nesse texto exemplificarei alguns movimentos que faço regularmente na minha carteira de investimentos, baseados em princípios que uso no método de alocação de ativos. Não entrarei em detalhes sobre sua teoria básica, mas sim mostrarei, através de situações reais, como ajo em alguns momentos bruscos do mercado.

Caso você ainda não conhece o método, veja detalhadamente como ele funciona, além de uma sugestão de montagem inicial de carteira de investimentos para os novatos em "Alocação de Ativos ao alcance de todos".


A alocação e os percentuais dos ativos em sua carteira de investimentos


O mês de Abril foi um período com uma maior movimentação em meu portfólio. Na verdade, desde o final de 2016, com a diminuição da Selic, eu comecei a repensar algumas premissas e a modificar algumas alocações, embora nos últimos 60 dias a movimentação foi mais intensa, em virtude da grande valorização de algumas empresas as quais sou acionista.

Como sabemos, o praticante do método de alocação de ativos aloca um determinado percentual de diversos ativos em sua carteira e, desfeitas essas proporções, ele deve rebalancear novamente seus ativos para voltar ao percentual original. As movimentações que fiz estão fundamentadas nessa base, mas antes de continuar, desejo fazer duas observações.


1) Percentuais de alocação não são imutáveis


A atribuição do valor percentual de um papel na alocação de ativos não é algo eterno. Ela pode ser modificada com o tempo em função de sua percepção do mercado, de sua idade e mesmo de seus objetivos e prazos no uso do dinheiro. Desde o começo de 2017, eu tenho alterado meu viés de manter a maior parte do meu patrimônio em renda fixa, aproveitando-se, até então, da alta taxa de juros no país. Comecei a reduzir essa participação de um teto de 65% para 40% atualmente, principalmente em investimentos atrelados à Selic de curto prazo (aproveitar-se de momentos potencialmente críticos com nossas eleições) e títulos longos com vencimento em 2035 e 2050, em detrimento aos pré-fixados.

Essa diminuição de 25% na renda fixa foi alocada em ações de empresas e principalmente, fundos imobiliários. Antes, eu possuía em carteira uma participação de menos de 10% de fundos imobiliários e hoje estou chegando a 25%, aproximadamente a mesma fatia de ações. Se a Selic continuar a cair e passarmos ilesos na eleição de Outubro, revisarei mais uma vez esses percentuais.

Resumindo: a alocação de ativos, para ser mais efetiva, exige que repensemos continuamente o valor percentual que atribuímos às nossas alocações. É verdade que uma das virtudes do método é evitar ações emocionais e vieses súbitos na operação dos ativos. Mas também é verdade que podemos aprimorá-lo muito se estivermos sempre avaliando a situação macro no mercado.

2) A qualidade dos ativos importa


Atribuídos os percentuais de cada ativo em sua carteira de investimentos, chega a hora de escolher seus papéis. O método de alocação de ativos não é algo mágico que sempre dará certo se você seguir apenas o seu mecanismo operacional. Os papéis escolhidos devem sempre ser avaliados pela sua qualidade e possuir retorno e risco compatíveis.

Se uma ação que possuímos na carteira sofrer algum abalo grave e suas cotações desabarem, devemos pensar se, de fato, é viável dobrarmos a aposta para repor esses percentuais. Isso ocorreu comigo no ano passado quando vi minhas ações da CMIG3 caírem 50% em um curto intervalo de tempo. Analisando a empresa e suas dívidas, decidi não comprar mais as ações. Acredito que o mais importante, nesses casos, é considerar a alocação dos pilares originais. No caso, comprei outros papéis de empresas (buscando mais qualidade) para restabelecer o portfólio da renda variável.

Algum leitor mais atento poderia observar que no artigo que escrevi no ano passado sobre a alocação de ativos, eu sugeri a montagem do pilar de renda variável através dos ETFs, ou seja, em fundos com uma cesta de ações, impossíveis de serem avaliadas individualmente. Ou seja, quem montasse uma carteira com aquelas premissas, ficaria de certa forma, impossibilitado de escolher as ações qualitativamente.

Isso diminui claramente nossa liberdade de definir os melhores ativos. Porém, a ideia da sugestão foi possibilitar ao pequeno investidor a participação do método com pouco capital. Tenho convicção que, mesmo não sendo explorada em todo o seu potencial, a alocação de ativos oferece um retorno acima da média do mercado, como já foi provado em diversos estudos. De qualquer forma, no mesmo artigo eu comentei que seria algo bem mais produtivo escolhermos nossas próprias ações definindo um percentual a setores específicos do mercado.

Achei por bem fazer esses dois comentários inicialmente pois nosso amigo blogueiro Além da Poupança publicou um post na semana anterior que causou alguma celeuma na finansfera. Seu artigo incluiu a ideia de que a alocação de ativos, por si só, não se preocupa com a qualidade dos ativos, o que não concordo. Acredito que, com uma possível exceção de trades curtos de Análise Técnica, todo método passa por uma boa escolha de ativos. Não existe um bom produto final com ingredientes podres.

Ou seja, alocar/rebalancear e escolher bons ativos não são coisas mutualmente excludentes e, na minha opinião, ambos fazem parte do método. De qualquer forma, deixo aqui o link para seu artigo caso alguém queira avaliar opiniões diversas.

Meus rebalanceamentos no último mês


Veja, com exemplos reais de meu portfólio, algumas operações de rebalanceamento dos pilares em minha carteira de investimento pelo método de alocação de ativos.
Gráfico da valorização de ELPL3
Nesse mês de Abril duas ações de minha carteira valorizaram expressivamente. A Suzano (SUZB3) já vinha com uma valorização no mês anterior quando a empresa comprou a Fibria. Já a valorização da Eletropaulo (ELPL3), com a briga pelo seu controle acionário por outras gigantes, ocorreu majoritariamente nesse mês.

Nesse mês de Abril, a valorização de SUZB3 chegou a mais de 23% e, no ano, a incríveis 119%! Já a ELPL3 marcou estupendos 91% no mês e 109% ao ano.

Uma vez que, na minha gestão do pilar de renda variável busco manter um percentual de cada papel individual entre 1 a 1,5% da minha carteira total de investimentos, vendas de parte dessas ações seriam inevitáveis...
A Suzano, é verdade, já tinha ultrapassado o percentual de alocação no mês passado, mas eu deixei ela esticar até o percentual de quase até 2% antes da venda, pois eu sempre gostei muito da empresa. Como ela se valorizou ainda mais esse mês, parece que foi uma decisão acertada, mas eu, por outro lado, não esperava que ELPL3 também iria explodir no mesmo período.

Veja, com exemplos reais de meu portfólio, algumas operações de rebalanceamento dos pilares em minha carteira de investimento pelo método de alocação de ativos.
Gráfico da valorização de SUZB3
O resultado é que esse mês, a venda de parte dessas ações ultrapassaram os R$ 20mil, que é o limite de isenção para pagamento do IR. Uma vez que a valorização foi grande, teoricamente eu deveria pagar um valor considerável de imposto de renda mensal.

Porém, eu tinha uma carta na manga que estava esperando até esse último pregão para fazer: vender ações que estão no prejuízo para compensar esse lucro e diminuir ao máximo possível esse IR. Eu havia montado recentemente uma posição em Multiplus e carregava uma posição de AES Tietê (TIET11) desde 2012, que ainda operava no prejuízo. Realizar a venda do montante necessário para zerar esse imposto e recomprar novamente os papéis no dia útil seguinte, é uma estratégia que pode ajudar muito no planejamento tributário. É possível perder alguns décimos de percentual nessa operação, mas tenho certeza que, globalmente, é compensatório.

Transferência de parte do lucro para fundos imobiliários


Outras empresas do meu portfólio valorizaram-se razoavelmente esse mês também, o que contribuiu para que, mesmo com as vendas de SUZB3 e ELPL3, o percentual do pilar de ações ficasse ligeiramente acima dos 25%. Como eu ainda não alcancei essa mesma meta para os Fundos Imobiliários, usei o excedente para comprar BCRI11, um fundo de recebíveis que possui a expectativa de entregar 9% de dividendos (livres, sem impostos) aos seus cotistas nesse ano.

Minha carteira inicial de fundos imobiliários começou apenas com fundos de tijolos, ou seja, lastreados em ativos reais. Mas com a diminuição dos juros no país, eu comecei, desde o ano passado, a trocar parte da renda fixa por FIIs de recebíveis, lastreados em CRIs. Os riscos são maiores, mas os rendimentos que podemos auferir dos rendimentos de seus títulos e suas cotas, compensou, para mim, essas realocações.

Será que esses movimentos foram corretos?


Finalizo esse relato para tentar responder a pergunta acima, que, talvez, podem estar passando pela cabeça de muitos leitores investidores, embora eu, particularmente, não estou muito preocupado com isso.



Venda de parte da alocação de SUZB3 e ELPL3 e dribles no IR



O objetivo maior desse texto é mostrar que os rebalanceamentos, como exemplificados acima, não possuem a finalidade primária de auferir ganhos em cada operação, mas sim realizar gerenciamento de riscos no carrego dos ativos, sem expor-se demasiadamente em alguns deles.

Se fizermos uma enquete entre vários investidores, provavelmente muitos deles consideraram a venda de papéis de boas empresas como um movimento precipitado, que elas possuem bons fundamentos e que poderão subir muito além desse patamar. Outros, poderão ser mais conservadores e avaliar que já subiram bastante, que a situação do país está meio nebulosa e que lucro bom é lucro no bolso.

Eu, na verdade, não situo meu pensamento em nenhum das opções acima, justamente porque minha visão difere da visão de um trader, que pensa nos movimentos isolados. Eu penso a carteira de investimentos de forma global, e sinto-me seguro em não manter uma exposição muito alta em ativos, por melhores que sejam e, principalmente após uma alta repentina (as exceções que faço nessa consideração são as ações que possibilitam a operação de opções líquidas, como a VALE3 e a PETR4). Enfim, nunca sabemos qual será o próximo cisne negro. Existem ótimas empresas que atualmente estão sendo investigadas em operações de corrupção. Logo, quem garante que mesmo as boas ações não possam sofrer seus reveses?
Se você se interessa na ideia de usa opções para remunerar seu portfólio, veja "As vendas cobertas de opções aliadas à estratégia de alocação de ativos"
Vendendo ações de alta expressiva, além de diminuir o risco individual de carregar uma posição grande nos papéis, permite que eu faça o reequilíbrio dos montantes em cada pilar. Nesse mês, por exemplo, diminui um percentual de ações de empresas e aumentei em FIIs. Isso possibilita, principalmente na minha situação, o gerenciamento globa da carteira, e não somente do ativo propriamente dito.

As pessoas que possuem usufruto de um salário ou de alguma renda externa aos investimentos e que aportam bons valores mensalmente em seu portfólio, possuem menos necessidades de realizar vendas para o reequilíbrio de posições. No meu caso, eu vivo exclusivamente do gerenciamento de minha carteira, e tais procedimentos são essenciais para o sucesso do método.

Assim, quem pensa em seguir o método de alocação de ativos, não deveria tentar adivinhar o que ocorrerá no futuro. O foco deveria ser em sua carteira de investimentos de forma global, e não em operações individuais. Sobre o tema, escrevi no ano passado "A importância do foco na montagem de uma carteira de investimentos". Fica como sugestão de leitura adicional.

Ou seja, usar o gerenciamento de risco como um fundamento importante no método é importantíssimo, assim como não esquecer de que, como comentei anteriormente, escolher bons ativos para compor a carteira é algo fundamental para a conquista de seus objetivos.

E vocês, como costumam agir quando algum ativo em seu portfólio sofre movimentos bruscos?


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Mais alguns artigos dentro do tema de alocação de ativos:

Porque é interessante ter dólar em sua carteira utilizando contratos futuros
Investindo com segurança: os riscos que você pode (e deve) controlar
O que é melhor para seus investimentos: renda fixa ou renda variável?

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