Política e corrupção: com o atual modelo mental estatista, há solução?

O modelo mental estatista é a causa principal da corrupção. Mais Estado, mais favores, mais propinas, mais política, menos justiça.
Corrupt Legislation, de Elihu Vedder

Algo está errado quando as pessoas exigem menos corrupção, mas reivindicam mais interferência estatal na nossa vida.

Estado e corrupção formam um elo tão forte que só poderá ser enfraquecido quando a concepção estatista for varrida do modelo mental de grande parte da população.

Veja como podemos iniciar essa mudança, mesmo que a conta-gotas, no país!


Foi-se a Copa e, novamente, já aponta-se uma nova eleição (ordem que será, momentaneamente, invertida em 4 anos, na Copa do Catar). Entre notícias sobre futebol e política, nesses dias assisti um pouco mais de telejornais e voltei alguma atenção naquele quadro da Globo "Que Brasil que você quer para o futuro?", onde as pessoas fazem um videozinho para ser apresentado nos telejornais.

É impressionante como não há variedade nos desejos das pessoas. A pauta mais pedida é, de longe, menos corrupção e suas variações, como prisão de políticos, diminuição de suas benesses e menos poder a esses burocratas. O interessante é que muitos desses clamores emendam, muitas vezes nas mesmas falas, solicitações de mais educação, mais saúde, mais empregos e mais investimentos. Pelo Estado, é claro.

Esse modelo mental do brasileiro não surgiu agora, mas, apesar de ser fruto histórico de nossa colonização, piorou muito no século XX com a ditadura varguista, com o governo militar "amante do Estado" e com os governos de esquerda nas últimas décadas no poder. Chegamos em uma miséria intelectual que parece impossível chegar à Globo um vídeo que peça "menos Estado e interferência política em nossa vida". Eu ao menos, não vi nada parecido. A "massa" quer mesmo mais Estado e menos corrupção!

Pedir menos corrupção e mais Estado é uma grande confusão mental


Em vários textos desse blog eu enfatizo constantemente a relação da maciça influência do Estado em nossa vida, o que gera um notável e intrincado convívio entre a política e corrupção. Apesar de tal relação ser evidente, as pessoas elegem o Estado como o principal provedor de suas necessidades e supressão de suas angústias, sem perceber que tais demandas incrementam as teias por onde a própria corrupção se desenvolve.

Solicitando mais interferência do Estado em nossa vida, ampliamos o poder dos burocratas e tornamo-nos ainda mais susceptíveis as condições para o abuso desse poder. A corrupção não existe por si só, mas é uma consequência de um gigantismo estatal que a maioria da população, infelizmente, demanda cada vez mais.

Quando era ativo no Facebook, uma das postagens mais compartilhadas foi uma que dizia:

"O problema não é aquele ou esse juiz (ou político). O problema é o SISTEMA.
Muda-se o sistema diminuindo o PODER POLÍTICO dos burocratas.
Diminui-se o poder político quando clamamos por MENOS ESTADO.
As pessoas que lutam por MAIS Estado e MENOS corrupção têm uma grande confusão mental para resolver".

Isso foi bem antes dos debates sobre o "sistema" que a série "O Mecanismo" da Netflix gerou, embora seu diretor ainda acredite que seja possível que o mesmo "sistema" possa ser melhorado...

É primordial que seja enfatizado que, por mais tribunais e CPIs que sejam criados, por melhores que sejam as intenções dos políticos e juízes, não há como evitar a corrupção com o poder e a subserviência política que atualmente legamos ao Estado. A solução passa por diminuir o Estado. Quaisquer medidas em outra direção, justificadas por demandas da população, gerará mais corrupção.



Os tentáculos do Estado


A estrutura estatal, arquitetada sobre uma fachada de incentivo ao crescimento do país e assistencialismo social, ramifica-se em diversas áreas e encontra-se presente por toda parte. Seja no poder executivo, legislativo ou judiciário, assusta o alto número de funcionários, todos com salários e benefícios muito além da média do brasileiro não pertencente ao grupo privilegiado. Não contentes com essa condição, muitos usam sua posição para exercer poder sobre a iniciativa privada conivente para possibilitar condições de favorecimento à suas empresas, em troca de ajuda financeira e política.

Os tentáculos e o poder dessa imensa estrutura alcançam muito além do círculo político eleito se considerarmos as nomeações de cargos comissionados de empresas como Petrobrás, Eletrobrás, Correios, CEF e BB, designados totalmente para fins políticos em troca de favores. Agências reguladoras, como ANATEL e ANEEL têm uma imensa influência de favorecimento sobre várias empresas privadas, enquanto toda a rede de assistência social, educação e saúde expõem infindáveis casos de imoralidades, onde apenas uma pequena parte é revelada pela mídia.

É notório o poder que todo esse arcabouço sórdido exala. Em todos os níveis hierárquicos, as facilidades vendidas pelos burocratas estão disponíveis para quitar favores anteriores e para gerar outros benesses futuros, enriquecendo paralelamente, os próprios ocupantes desses cargos. O universo da corrupção abrange desde fatos constantemente expostos na mídia, como as compras de votos (mensalões) e as inúmeras ramificações da Laja-Jato, até a  divulgação de episódios muitas vezes desconhecidos pelo grande público, como as irregularidades de hospitais na compra de medicamentos de laboratórios.

Soma-se ainda a isso o poder mais perverso: a distribuição de “bondades” visando a formação de um curral de eleitores para garantir os votos da próxima eleição. Os políticos mais desonestos usam a condição de miséria (tanto econômica quando intelectual) do povo para oferecer migalhas, colocando-se como o paladino da virtude e da bondade. Oferecem o pouco e retiram o muito das mesmas pessoas, sob a forma de impostos e, normalmente, restringindo suas liberdades.

Infelizmente, as pessoas reagem de forma imediata ao seu ambiente e às supostas facilidades oferecidas, e, sem dar-se consciência dessas restrições aos seus atos e pensamentos, terminam por entregar poder excessivo aos atores públicos, na forma de aceites, acordos e propinas. Nesse círculo de concentração de poder, até os mais dispostos a lutar pela honestidade e lisura das ações poderiam tornar-se vulneráveis, pervertendo-se dentro do sistema.

Em seu aclamado livro "A Revolta de Atlas", Ayn Rand escreveu sobre os burocratas:

"Então o senhor verá a ascensão daqueles que vivem uma vida dupla, que vivem da força, mas dependem dos que vivem do comércio para criar o valor do dinheiro que eles saqueiam. Esses homens vivem pegando carona com a virtude.

Numa sociedade onde há moral eles são os criminosos, e as leis são feitas para proteger os cidadãos contra eles. Mas quando uma sociedade cria uma categoria de criminosos legítimos e saqueadores legais – homens que usam a força para se apossar da riqueza de vítimas desarmadas – então o dinheiro se transforma no vingador daqueles que o criaram.

Tais saqueadores acham que não há perigo em roubar homens indefesos, depois que aprovam uma lei que os desarme. Mas o produto de seu saque acaba atraindo outros saqueadores, que os saqueiam como eles fizeram com os homens desarmados.

E assim a coisa continua, vencendo sempre não o que produz mais, mas aquele que é mais implacável em sua brutalidade. Quando o padrão é a força, o assassino vence o batedor de carteiras. E então esta sociedade desaparece, em meio a ruínas e matanças."

Ou seja, estamos, ao final, alimentando um círculo vicioso que não condiz com o progresso de cada um de nós. Qual a mudança que a sociedade deveria promover para prevenir essa distopia?

Soluções para diminuir a corrupção

 
A única forma de interromper essa forma degradante de política instituída e alimentada pela corrupção é a diminuição do poder estatal. A ação principal é obstruir o fluxo desses acordos que envolvem o enriquecimento ilícito e “favores” entre o setor público e o setor privado, de forma que o governo não se utilize de seus cargos e contratos para expandir ainda mais o seu poder. 

Privatizar as mais de 150 empresas estatais federais e outras centenas pertencentes ao Estado seria umas das principais ações. Uma privatização de fato “para” a população, dividindo e entregando suas ações a cada CPF, cujo dono poderia comercializá-las da forma que melhor lhe conviesse. Veja como isso poderia ser feito, com inclusão social, para a Petrobrás.

Em um segundo momento, será necessário privatizar também as estruturas da saúde e educação, com um período de transição onde o papel do governo deveria ser apenas de distribuir vouchers à população realmente necessitada, ideia defendida por Milton Friedman. Nessa situação, o Estado não abster-se-ia de seu dever de promover a saúde e educação básica à população, oferecendo-o, portanto, dentro de um sistema de livre mercado. E, entre outras medidas, eliminar todas as agências de regulação e implantar de fato, o livre mercado no país, estabelecendo o (real) conceito de uma livre concorrência, onde o consumidor - e não os burocratas, ditará os rumos da economia.

É claro que isso não pode nos levar a acreditar "polianamente", que todos os problemas da sociedade estarão resolvidos, mas é um passo importante na direção correta. A aplicação de todas essas ações gerariam principalmente, uma mudança no gerenciamento de negócios das empresas: ao invés de se preocuparem em alimentar lobbies no governo, investirão seu tempo e riqueza em produtividade, proporcionando melhores produtos a preços mais justos. O círculo, antes vicioso, tornaria-se virtuoso.

Com essa gradual diminuição de poder governamental, verificaremos, eleição a eleição, uma mudança no perfil de candidatos. Uma vez que os futuros políticos conscientizarem-se que manobra ilícitas estão cada vez mais inacessíveis, e o que lhes é devido serão “apenas” seus próprios salários, teremos naturalmente pessoas mais dispostas a trabalhar honestamente para uma melhor administração, e não para seus próprios bolsos. Não é uma mudança rápida, porém é um caminho efetivo e estável, uma vez que ataca a real raiz do problema. Os elos entre um e outro, política e corrupção, começarão a ser desfeitos.

Mas para isso, a grande maioria da população precisa mudar radicalmente o seu modelo mental de achar que as coisas devem ser resolvidas pelo Estado. A transformação vem de baixo para cima. As pessoas precisam assumir que sua desilusão com a política provém da expectativa que possui em relação ao governo. E, principalmente, assumir a responsabilidade pelas suas próprias escolhas, pelo seu destino e assumir o protagonismo de seu destino.

Meios para implementar as soluções


Gosto muito dos princípios conservadores de Russel Kirk. Em um deles, o filósofo procura encontrar o equilíbrio entre a permanência e o progresso. Precisamos manter certos princípios que nos leguem a continuidade e estabilidade, além de nos guiarmos prudentemente ao aperfeiçoamento. Este, para ser perene, precisa ocorrer em harmonia com a estrutura da sociedade vigente.

Portanto, não defendo nada que se assemelhe a algum tipo de revolução: como diria Kirk, ela pode produzir um monstro, um câncer que devorará seu próprio hospedeiro. O meio que temos atualmente para mudar essa condição é o voto nas urnas.

Tenho empatia em que não acredita nesse método: considerando nosso histórico de votações, não podemos nos animar muito que os brasileiros farão a coisa certa. Mas precisamos crer em um trabalho de formiguinha, cujos substanciais resultados sejam colhidos não pelos nossos filhos, mas quiçá pelos nossos netos e bisnetos.

Nesse sentido, convido os leitores que ainda não conhecem, visitar a página do Partido Novo e conhecer suas diretrizes de criação, pensamento e suas propostas. O Novo já se distingue inicialmente por não utilizar o fundo público partidário: ele é mantido apenas pelos seus associados e doações. É um modelo que já quebra, desde seu nascimento, a espinha dorsal na transferência de dinheiro público servindo ao poder político.

Nas redes sociais, o presidenciável do partido, João Amoedo, está na frente de todos os outros, incluindo Bolsonaro, em engajamento nas redes sociais. As propostas liberais do partido têm alcançado uma grande repercussão, mas é necessário muito mais para que isso converta em votos em Outubro.

Desafio os leitores a responder uma simples pergunta: se vocês são contra a corrupção e muitas coisas que estão aí, que tal dar a chance para uma figura nova com grandes propostas, que nunca foi político e está muito bem assessorado por algumas das melhores mentes do país a ocupar um lugar nas vagas abertas das eleições de Outubro. O partido possui candidatos a todos os cargos executivos e legislativos na maioria dos Estados. Que tal procurar a votar certo dessa vez?

Entendo a incredulidade: eu também sou um cético na ocorrência de mudanças nesse país. Mas que outras alternativas temos? Descartando qualquer tipo de revolução, de nada adiantaria também o "não-voto"? Votar nas mesmas pessoas, não seria um ato muito inteligente... Sei que estamos muito longe de alto sucesso nessas eleições, mas quem sabe podemos plantar uma semente que florescerá no tempo? Mas precisamos colocá-la na terra já, sem demora. Convido a deixarmos o voto do "menos pior" para o segundo turno e fazer valer no primeiro, a mudança que queremos, de fato, ver em nosso país.






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Veja outro artigo sobre o assunto da corrupção e Estado: "Sua desilusão com os políticos provém da expectatica em relação ao Estado"

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