Dias 102 a 105 da viagem: Phnom Penh, surpresa na capital do Camboja

Relato da viagem a Phnom Penh, capital do Camboja, uma das piores vítimas da loucura dos ditadores. Mas uma cidade que surpreendeu!
Cena de Phnom Penh ao entardecer

Relato da viagem a Phnom Penh, capital do Camboja, uma das piores vítimas da loucura dos ditadores. Mas uma cidade que surpreendeu, por outros motivos!


A ida ao Camboja foi planejada sobretudo para a visita do complexo de Angkor Wat, em Siem Reap, no interior do país, que será comentada no próximo post. Porém, conhecer sua capital fez-me rever alguns pré-conceitos que eu tinha desse país.

Foi, provavelmente, o primeiro país que eu não imaginava ser como é, dentre todos os outros que passei até então. Para quem sempre gostou de geografia econômica, o Camboja é conhecido por ser um dos países mais pobres do mundo, com renda per-capita da mesma magnitude da África subsariana, e um IDH que o coloca na 138º em um total de 189 países. Além disso, o país é um dos recordistas em percepção de corrupção no mundo, ocupando a 157º posição em uma lista de 174 países. Eu esperava encontrar muitas situações que ilustrem essas condições, principalmente após o choque de modernidade que recebi anteriormente em Kuala Lumpur. Mas não foi exatamente o que ocorreu.

Relato da viagem a Phnom Penh, capital do Camboja, uma das piores vítimas da loucura dos ditadores. Mas uma cidade que surpreendeu!
A avenida Sisowath, que margeia o rio Mekong
A capital possui sim, seus problemas, como qualquer cidade brasileira, mas também mostra o desenvolvimento de  um bom planejamento urbanístico, preservação e cuidados que não imaginava encontrar em um país com indicadores tão ruins. Existem muitas avenidas largas, bem asfaltadas, arborizadas e com belas praças entre as pistas.

Em muitas delas, estruturas de lazer abundam para as crianças. As calçadas, embora usadas praticamente como estacionamento de carros, são bem preservadas e na região central, existem muitos restaurantes e dois razoáveis shopping centers.

A avenida cheia de bares que margeia o rio Mekong é acompanhada de um largo boulevard que é muito frequentado pela população após o final da tarde, quanto o sol dá uma trégua. Existem muitos que usam os aparelhos de ginástica para exercitar-se e grupos de aeróbica participam de aulas ao ar livre. Outros grupos jogam futebol, peteca e vôlei às margens do grande rio, que também é palco de passeios de botes para os interessados. Muitos cestos de lixos nas ruas e praças, traduzindo-se em poucos problemas de acúmulo de sujeira.


A concentração de renda aqui, porém, apesar de o índice Gini do país não ser tão absurdo, aparenta ser grande; muitos, mas muitos carros caros passeiam pela cidade, incluindo Bentleys, Porsches e Ferraris. Mercedes é quase carro popular aqui. A maioria deles estacionam próximos aos órgãos públicos, muitos deles sediados em edifícios magníficos. Considerando a informação sobre a corrupção que reina no país, precisa dizer mais alguma coisa?...

Porém acredito que o país possua uma economia informal muito grande para mostrar tal pujança em comparação o tamanho atribuído à economia. Imagine, o PIB de todo o país de 15 milhões de habitantes é 30% inferior ao PIB de Campinas, com 1 milhão de moradores! De onde vem todo esse dinheiro senão através de uma grande economia informal?

Relato da viagem a Phnom Penh, capital do Camboja, uma das piores vítimas da loucura dos ditadores. Mas uma cidade que surpreendeu!
Memórias do absurdo recente
Porém, embora esse ponto seja até positivo (menos impostos para o governo e mais dinheiro para as pessoas), o que se pode dizer da informalidade nos processos governamentais, como os projetos que são patrocinados por outros países (e são muitos – construção de praças, saneamento básico, preservação de templos), principalmente Canadá, Japão e China. Será que eles recebem integralmente todos os recursos que são enviados?

Mas, mesmo não da melhor maneira, o país está reconstruindo-se. O Camboja foi palco na segunda metade dos anos 70 do século passado de um regime considerado o mais cruel do século, que matou cerca de 2 milhões de pessoas em um total de 8 milhões (25% da população) durante a sua curta, mas trágica, existência.

Relato da viagem a Phnom Penh, capital do Camboja, uma das piores vítimas da loucura dos ditadores. Mas uma cidade que surpreendeu!
Fotografias dos trabalhos forçados
A história pode ser entendida melhor através da visita do antigo escritório S-21, hoje transformado no Museu do Genocídio Tuol Sleng, palco de detenções, interrogatórios, torturas e assassinatos. Apontam-se 20.000 mortes somente nesse local, uma antiga escola secundária. O Museu mantém abertas as salas dos prisioneiros, mostra instrumentos de tortura e muitas fotos, algumas das quais não tive coragem de fotografar. Algo chocante. Mantém uma sala com ossos e crânios encontrados e 14 túmulos para o funeral dos 14 corpos encontrados já em decomposição após a derrubada do regime. 

O regime comunista, liderado pelo insano Pol Pot, inspirou-se posteriormente no maoísmo para construir uma sociedade basicamente agrária, e eliminou muitos que pudessem prejudicar suas estratégias, basicamente as pessoas de boa educação e formação que podiam questionar suas viabilidades, principalmente os professores. São marcas ainda difíceis de remover na memória das pessoas mais velhas do país.

A cidade de Phnom Penh não tem grandes atrações turísticas. Alguns bonitos templos, bem como o palácio real, são alguns locais que merecem ser visitados, mas para quem já passou pela Tailândia, não há muita novidade. O país também é predominantemente budista e as construções,  muito semelhantes.

Relato da viagem a Phnom Penh, capital do Camboja, uma das piores vítimas da loucura dos ditadores. Mas uma cidade que surpreendeu!
A grande praça do palácio real
Eu gastei um tempo a mais na cidade pois fiz meu visto do Vietnã na embaixada daqui, e demorou 2 dias para ficar pronto. Enquanto na embaixada vietnamesa de Kuala Lumpur o visto custava US$100.00, aqui custou-me US$60.00. Ainda caro, mas 40% menos... Para entrar por terra no Vietnã, ter o visto antecipado é a única possibilidade.

Aproveitei também para assistir um filme tailandês em um cinema local, com uma dublagem de terceira categoria para o cambojano. Uma comédia meio pastelão, onde a mocinha é uma garota de programa e é objeto de paixão do rapaz bonzinho. Algumas piadas e tiradas eram possíveis de entender, mas muitas vezes o pessoal que assistia se divertia e eu não fazia ideia do que estava acontecendo. De qualquer forma, é uma boa situação para treinar nosso entendimento de percepções corporais alheias...



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Próxima parada: a capital do Camboja, Siem Reap e Angkor Wat.

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As postagens dessas reflexões são parte de uma viagem que começou na Europa, passou pela Ásia e retornou ao velho continente. Veja aqui como foi a viagem completa de 205 dias.

Veja mais viagens nessa página, ou ainda, algumas reflexões sobre o tema nesse link.

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