A TSR, a planilha de plano patrimonial de 2018 e meu histórico na TNRP



Você já ouviu falar de TSR? Ou de TNRP?


Veja nesse texto como avalio essas taxas que nos ajudam a alcançar a independência financeira, além de um interessante histórico de meus planejamentos anuais.



O termo TSR - Taxa Segura de Retirada sobre o patrimônio, já foi abordado algumas vezes entre colegas da Finansfera. O significado desse termo compreende o quanto uma pessoa poderia "sacar" periodicamente de seu patrimônio sem diminuição de seu valor real. Ou seja, para qual valor de despesas mensais o patrimônio seria eterno, possibilitando assim, a declaração da independência financeira?

Estudos realizados nos EUA e com determinadas alocações de portfólios costumam convergir a TSRs próximas de 4% anuais. Condições sui generis em determinados mercados, como altos históricos de remunerações na taxa real de juros e/ou rendas variáveis, bem como outras alocações, podem trazer TSRs muito diferentes. O blog do Investidor Inglês trouxe no ano passado excelentes informações sobre um estudo ampliado para outros países mostrando a variação da taxa conforme a realidade de cada mercado. Nosso país mostrou-se um lugar seguro com uma TSR de 5%, sendo influenciada, sem dúvida, pela alta taxa de juros.

Os conceitos sobre a TSR já foram debatidos há algum tempo no blog do Viver de Renda, e, recentemente, no Aposente-se aos 40. Diante das referências, vou eximir-me de entrar muito em detalhes teóricos e vou ater-me à minha opinião sobre o assunto. Confesso que, apesar de perceber o conceito como educativo no intuito de evitar grandes bobagens (como ignorar o efeito da inflação no tempo), eu nunca usei-o como uma indicação para meus gastos futuros. Sempre fiz o inverso, ou seja, estabeleci uma previsão de gastos futuros e calculei qual deve ser o rendimento do meu patrimônio para atingir meus objetivos.

Vou explicar melhor adiante esse pensamento, citar novamente a planilha que uso para esses cálculos (já disponibilizada aqui nesse blog) e como variou anualmente a rentabilidade exigida para meu patrimônio de 2000 até 2018.

Para planejamentos de longo prazo, eu vejo a TSR como inútil


Colegas que usam a TSR, não me entendam mal: eu considero, sem dúvida, a utilidade do conceito como um guia para as pessoas que buscam - ou já possuem, a independência financeira. Mas vejo alguns pontos falhos que prejudicam muitas variáveis nos planejamentos futuros. A taxa não é flexível para absorvê-las adequadamente durante nossa jornada, e, em função disso, nunca a usei diretamente para alcançar meus objetivos. Vejamos abaixo os porquês.

1) Gastos anuais variam com o tempo


A TSR, uma vez que indica um valor monetário máximo para as retiradas periódicas de seu patrimônio, acaba engessando um plano de longo prazo. Como o blog do Frugal Simple já escreveu em um texto, as despesas são determinantes para definir a duração das reservas financeiras. E seu planejamento de longo prazo não pode ser baseado em um limite máximo de retiradas considerando apenas sua realidade atual.

É possível que, se usarmos uma taxa de 4 ou 5%, poderemos chegar a uma conclusão precipitada de que somos independentemente financeiramente, considerando nossas despesas no momento. Mas como será seu futuro? Será que seus gastos aumentarão? Existem expectativas em ter mais filhos, possuir mais bens de consumo ou fazer um MBA de ponta no exterior?

Ou seja, cada decisão que tomamos hoje aumenta ou diminui o prazo para alcançar a independência financeira, como eu comentei nos comentários do texto do Aportador Financeiro, escrito sob essa temática. Assim, entendo que, como estamos sujeitos a mudanças de planos em nossa vida, não podemos tirar conclusões baseadas apenas no valor de TSR.

2) O ambiente está sempre em mudança


Parágrafos atrás, comentei o estudo que colocava o Brasil como um país confortável para aceitar uma taxa segura de retirada de 5%, sob uma carteira de investimentos baseada sob títulos de renda fixa. Suponha, entretanto, que nessa ano a esquerda (ao menos a mais radical) não vença as eleições. Será que esse estudo continua valendo? De maneira nenhuma! As taxas de juros reais tendem a cair ainda mais.

Na verdade, no momento em que escrevo, para a carteira de investimentos do estudo baseada em renda fixa, essa TSR de 5% já é inviável. Nesse mês de janeiro os juros da economia já devem cair abaixo de 7% sob uma inflação de 3%. Contando os impostos, já é praticamente impossível retirar 5% líquidos sem apostas arriscadas. Sob o cenário de uma eleição pró-mercado, os juros brasileiros tendem a cair ainda mais e a inflação aumentar ligeiramente, tornando qualquer planejamento de curto prazo com base nesse valor de 5%, um desastre total.

Qual é a relevância de um estudo cujas bases não são minimamente sustentáveis no tempo? Por que gastamos tanto tempo pensando em TSR, se as condições mudam de momento a momento?

3) A alocação do portfólio é determinante para definir uma TSR

Os estudos americanos são realizados com base em determinadas alocações de ativos para as carteiras de investimento. O estudo Trinity, por exemplo, usou 50% em renda fixa e 50% em renda variável. Estudos mais modernos usaram alocações diferentes. Para o Brasil, usou-se 100% em renda fixa no estudo apontado pelo blog do Investidor Inglês.

Ou seja, as variáveis nas alocações são enormes! E elas não se encerram apenas no percentual de cada classe de ativos no portfólio, mas também em que momento do mercado você realizou cada compra, cada venda e cada rebalanceamento de ativos. Os ciclos de mercado proporcionam variações imensas em uma possível TSR. Enfim, um samba do crioulo doido!

Espelhar de forma fiel sua carteira de investimentos com a carteira desses estudos, almejando uma correlação minimamente segura para a expectativa de duração de seu portfólio é algo praticamente impossível. E, consequentemente, seria um risco muito grande você pautar sua liberdade financeira utilizando esse indicador.

4) Quanto de seu patrimônio você deseja deixar aos herdeiros ou a entidades assistenciais?


A Taxa Segura de Retirada ignora essa decisão. Oferecendo apenas um número frio, ela não considera o destino que desejamos dar ao nosso patrimônio no final da vida. Se nós já estamos descendo a ladeira da idade e não vemos necessidade de deixar a totalidade de nossa carteira de investimentos aos herdeiros, podemos gastar muito mais do que a TSR nos aponta.

Imagine que você chegou à sua independência financeira utilizando o conceito de TSR. Atribuindo uma taxa de 5%, digamos que você poderá gastar até R$100 mil por ano. Mesmo se desconsiderássemos os 3 itens acima comentados, esse número só seria apto a ser considerado caso desejássemos manter nosso patrimônio intacto. E pode não ser essa a ideia em vida. Podemos, por exemplo, desejar gastar além desse valor para ajudar entidades assistenciais.

Todos esses conceitos foram expostos em um artigo de 2014 do blog Pensamentos Financeiros, onde eu também fiz um comentário sobre o método que utilizo para o cálculo da manutenção da liberdade financeira. Na época, eu ainda não escrevia regularmente sobre assuntos financeiros no blog e não tinha disponibilizado minha planilha de Plano Patrimonial aos leitores. É sobre ela e sobre o conceito de TNRP (recém-inventado), que falarei a seguir.



A Planilha de Plano Patrimonial e o histórico da minha TNRP


A Planilha de Plano Patrimonial


Eu apresentei a planilha de plano patrimonial em um texto que expõe exatamente a ideia colocada no 4º item do bloco anterior: como calcular o momento de se gastar MAIS dinheiro com segurança e não exaurir o seu patrimônio. Para aprofundamento, incluindo o download da planilha, clique no link: "Quando gastar mais dinheiro e usufruir de sua independência financeira".

A planilha gera uma previsão de gastos para suas próximas décadas (totalmente customizável) de uma forma muito simples. O usuário pode definir, para cada ano, seus projetos e condições particulares de despesas. Pode parecer algo demorado e enfadonho, mas acredite: não é. Uma vez definidos seus projetos principais, resta definir o percentual de aumento ou diminuição anual de cada categoria de despesas, que pode ser copiado para as células seguintes. Não vou entrar em detalhes do preenchimento uma vez que o artigo acima fornece tudo detalhadamente, inclusive com um exemplo fictício.

Ao invés disso, vou ater-me ao conceito que uso na planilha, que denominei, doravante, de TNRP, ou Taxa Necessária de Remuneração do Patrimônio.

A TNRP


Para corrigir o saldo anual de seu patrimônio, é necessário definir uma taxa de remuneração para sua carteira de investimento. Na planilha, sugeri a definição de duas taxas, uma para seu portfólio em renda fixa e outra para a renda variável. Uma vez definidas as entradas e saídas em seu patrimônio, a atribuição de valores para essas taxas será determinante para definir o ponto de sua independência financeira.
O leitor pode estranhar que, em alguns momentos, utilizo o termo "independência financeira" e em outros, "liberdade financeira". Embora ambos sejam grandes conquistas individuais, veja em "Como saber se você chegou em sua independência financeira. Matematicamente" como eu defino cada conceito e suas diferenças.
O usuário da planilha verá que ele precisará de taxas mais altas para alcançar, mais rapidamente, a liberdade financeira, bem como para sustentar gastos mais elevados. Nesse ponto em particular, a TNRP não difere, em conceito, da TSR. A diferença está na forma de definirmos essa taxa. Enquanto a TSR é definida, sob certas condições, em fornecer um limite máximo de retirada, a TNRP é feita do futuro para o presente. Ou seja, você define primeiramente seus objetivos anualmente e somente depois, verifica qual seria a taxa necessária para se tornar independentemente financeiramente em determinado ano.

Essa forma "inversa" de cálculo prevê flexibilidade em seus gastos anuais conforme seus projetos e necessidades, evitando o primeiro item que apontava para a ineficiência da TSR: gastos variam com o tempo. Não é muito útil saber quanto que posso gastar "hoje" da minha carteira de investimentos sem possuir um planejamento futuro de despesas. Ou seja, essa taxa engloba uma ampla flexibilidade que poderá ser atualizada ano a ano.

Essa atualização periódica é essencial para considerar também mudanças do ambiente citados no segundo item. As taxas sempre devem estar coerentes com a realidade da economia. Assim, ela sempre estará coerente com suas expectativas. Dividir taxas para diferentes ativos também é uma atitude que facilita a gestão, sendo possível posteriormente definir uma taxa média, que é o número cujo histórico apresentarei aos leitores na sequência.

Minha TRNP histórica


Já ouviu falar de TSR? E de TNRP? Veja minha planilha atualizada do plano patrimonial e como avalio as taxas que ajudam a atingir a independência financeira.
Comecei a usar a planilha de Plano Patrimonial no começo da década em arquivos Excel e, em 2017, criei um novo modelo no Google Docs. Como já contei em outra ocasião, o ponto de virada de minha história financeira iniciou no ano de 2000 em função da resposta dada por um professor a uma pergunta. Conheça toda a situação no texto "Minha biografia e os 5 elementos que compõem a inteligência financeira".

A primeira planilha compreendia um planejamento para os dez anos seguintes. Posteriormente, aumentei esse horizonte, de forma a incluir projetos e objetivos de longo prazo. Ampliei o cenário para 20 anos até 2006 e, a partir de 2008, venho mantendo-0 em 40 anos. Considerando que esse ano já caminho para os 46 anos de idade, penso que não faz muito sentido ampliar esse prazo...

Em cada ano, foi necessário definir uma taxa para a remuneração do crescente portfólio. Inicialmente, atribuía 10% ao ano, uma taxa demasiadamente otimista. Na época, entretanto, eu estava muito longe da independência financeira, e a planilha era apenas um exercício futurológico que ajudava a me educar no processo de acumulação de patrimônio.

A partir do ano de 2006, arrisquei baixar a TRNP para 9% e o resultado, aparentemente, manteve-se coerente com meus objetivos. Nos anos seguintes, entre ajustes da taxa e perdas em 2008 no mercado acionário, esse valor ficou mais ou menos constante, vindo a cair para 8% em 2010 e 7% no ano seguinte.

Eu pedi demissão do meu emprego em 2010, ou seja, estimava, com base no meu histórico de rentabilidade até então, que conseguiria manter rendimentos acima de 7% anuais para consolidar minha independência financeira. Ainda não tinha clara noção em que estágio eu estava entre a independência e liberdade financeira, tanto que nas planilhas seguintes eu ainda considerei um retorno ao mercado de trabalho (com uma remuneração 4-5 vezes menor do que eu possuía) em uma atividade onde eu possuiria maior domínio de meu tempo, na área onde retornei à universidade.

Já ouviu falar de TSR? E de TNRP? Veja minha planilha atualizada do plano patrimonial e como avalio as taxas que ajudam a atingir a independência financeira.


Entretanto, a partir de 2014, notei que as remunerações do portfólio estavam consolidando-se cada vez mais. A "mágica" dos juros compostos apresentava-se em ação, mais intensamente ano a ano. Mesmo sem aportes, meu patrimônio subia e fazia com que eu não necessitasse mais de uma TRNP alta, o que culminou com uma taxa de 3,5% para esse ano de 2018 em diante. Um número bem mais confortável. Essa evolução fez com que eu abortasse a ideia de retornar ao mercado de trabalho e permitiu-me fazer atividades sem remuneração, no intuito de ajudar mais as pessoas e gerenciar melhor o meu tempo livre, usando parte dele para acompanhar minha carteira de investimentos, e parte investindo em meu progresso pessoal.

Apesar do conforto, vamos convir que o mundo anda muito estranho com as máximas históricas em praticamente TODOS os ativos, aliadas a uma volatilidade baixíssima. Aqui em Pindorama, temos um país fiscalmente ainda muito debilitado e nesse ano, teremos eleições que podem piorar ainda mais a situação. Ou seja, apesar da taxa confortável, nada indica que os próximos tempos serão fáceis.

Passados essas maiores riscos, entretanto, e alcançando uma TRNP de 3,0% ou abaixo, é plenamente possível que nos próximos planejamentos, eu inicie um programa anual para novos destinos de capital, seja para família, entidades assistenciais ou a mim mesmo rsrs. A ideia não é esgotar completamente o patrimônio no futuro, mas, em sua maior parte, bem usá-lo em vida.

E vocês, leitores? Vocês fazem essa análise patrimonial anualmente? Como está a sua jornada particular? Espero que esse texto tenha sido útil para estimulá-lo ainda mais a alcançar sua liberdade financeira. Alguns evitam falar nesse assunto porque a imaginam em ficar em casa como um inútil. Mas não fazem ideia da abertura de possibilidades que ela fornece!



* * * * * * * * * *

Se você ainda não viu, criei recentemente uma página para agregar os artigos que fornecem gratuitamente planilhas financeiras para download. Virão outras adiante.

* * * * * * * * * *

Para receber atualizações de forma exclusiva e gratuita desse blog, clique no link abaixo:





* * * * * * * * * *



Gostou do artigo? Gostaria de dividi-lo com alguém? Compartilhe-o!

Comentários