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Renda variável e renda fixa: qual é a mais tangível no dia a dia?

A renda variável, na carteira de investimentos, está presente na vida. Já a renda fixa, aparentemente segura, é um ativo bem menos acessível. Veja o porquê.

Por que investir parte da carteira de investimentos em renda variável é, em geral, um tabu? Seria, em parte, o conceito de que são os ativos de renda fixa modelos mais fiéis do mundo real?

Entretanto, a presença ao nosso redor de empresas e imóveis negociados no mercado torna essa ideia sem sentido.

Exponho aqui alguns cenários em minha rotina. Com o mesmo exercício, você notará que a renda variável, definitivamente, faz parte dos ativos reais de nossa vida.


Por que há poucos investidores em renda variável no Brasil?


Atualmente há cerca de 700mil pessoas físicas com investimentos diretos em renda variável no país, sendo cerca de 600 mil para ações (número estagnado na última década, como pode ser visto na tabela) e 100 mil para fundos imobiliários. Apesar do pequeno crescimento nos últimos meses, é um valor irrisório perto de nossa população. Como comparação, nos EUA esse número supera os 200 milhões.

A renda variável, na carteira de investimentos, está presente na vida. Já a renda fixa, aparentemente segura, é um ativo bem menos acessível. Veja o porquê.
Participação histórica de pessoas físicas na bolsa brasileira - B3/Bovespa
Uma das explicações para essa distância do brasileiro é o desconhecimento que a maioria das pessoas possui do mercado acionário. É comum acreditar que esses ativos são apenas papéis e não fazem parte do mundo real. Esse conceito não está correto: ações de empresas e cotas de fundos imobiliários de tijolos são ativos muito mais reais do que o dinheiro que você mantém na poupança ou qualquer outra aplicação de renda fixa.

No sistema financeiro atual, o dinheiro que você possui investido em renda fixa é basicamente, virtual. Os bancos, devido a operacionalização das reservas fracionárias, possuem apenas um pequeno percentual de dinheiro disponível aos clientes em um mesmo momento. Uma situação onde muitas pessoas desejem sacar o seu dinheiro ao mesmo tempo, pode significar tanto a causa como a consequência de uma grande crise financeira. Assim, tais investimentos, assim como suas derivações, como fundos imobiliários de papel, são ativos muito mais intangíveis do que ações de empresas e fundos de tijolos. São, simplesmente, pedaços de papéis sustentados pela confiança.
Caso você tenha lido o texto que explico como fazer uma alocação simples de ativos em uma carteira de investimentos, percebeu que coloco as ações e fundos imobiliários em pilares diferentes, mas aqui eles são agrupados em renda variável em virtude simplesmente do fato das cotas... variarem.
Entretanto, a ideia não é preocupar ninguém. O sistema vem funcionando bem, com alguns soluços, por enquanto. O objetivo de uma alocação de ativos é justamente equilibrar esses riscos. A renda variável também pode incluir algum risco regulatório do direito de propriedade das cotas de ações ou fundo imobiliários, mas para tomarmos decisões corretas no âmbito dos investimentos, precisamos ter um mínimo de otimismo no sistema. Caso contrário vamos gastar tudo em suprimentos, armas e nos fechar dentro de nossa propriedade esperando o Armagedom. Não seria racional.


O mercado de renda variável está presente no nosso dia a dia


A ideia desse texto partiu de uma conversa do grupo do Facebook Suno Research. É um bom grupo para entender alguns conceitos importantes para investir em renda variável. Vale o acompanhamento. Semanas atrás, o moderador perguntou para as pessoas como elas vêem a renda variável em seu dia a dia. De fato, é um modo interessante para incentivar um maior conhecimento sobre os ativos.

Em meu caso, mesmo dentro do apartamento, tenho momentos que me permitem "analisar" prazerosamente alguns dos meus ativos. Gosto de deitar na rede na varanda para ler meus livros com tranquilidade no Kindle, para checar minha central de notícias particulares do Feedly e para meditar. Mas um fato sempre tira minha concentração e convoca minha atenção.

Moro perto de uma das malhas ferroviárias paulista, e a passagem do trem é um dos motivos para eu observar alguns de meus investimentos. Tenho participações na Rumo Logística, concessionária da malha ferroviária paulista e na Cosan, que usa parte da malha para o transporte de combustíveis. Pode parecer besteira, mas sempre que estou na varanda, conto os vagões que passam. É uma forma de sentir-se próximo aos nossos investimentos e analisar, mesmo de maneira superficial, o desenvolvimento das empresas.

Em curtos passeios pela cidade é possível analisar outras presenças no mercado. Uma visita ao shopping Dom Pedro em Campinas, mostra o porquê das cotas do fundo de investimento imobiliário PQDP11, que possui participação no empreendimento, não parar de subir já há tempos: o shopping está sempre cheio e a vacância é baixíssima. Uma vez um amigo abriu um quiosque no local e fiquei impressionado com o valor que pagava de aluguel. Algo absurdo para 10m2. Partiu daí a ideia de comprar algumas cotas e esperar a valorização seguinte.

A renda variável, na carteira de investimentos, está presente na vida. Já a renda fixa, aparentemente segura, é um ativo bem menos acessível. Veja o porquê.
O PIB Sumaré, propriedade do fundo imobiliário  KNRI11, da Kinea
Dentro do shopping, gosto de passar na Hering, avaliar o movimento e, mesmo que não adquira nada, observo se as pessoas estão comprando e se são bem atendidas. Acredito que possuo esse olhar de "dono" desde meu antigo emprego, quando passeava pelas fábricas avaliando pontos de atenção, o que poderia ser melhorado, etc. Agora esse olhar, mesmo não interferindo diretamente na administração, costuma ser mais prazeroso, pois é muito mais agradável ser um pouquinho "dono", ao invés de um funcionário assalariado.

Mais um exemplo. Regularmente visito meus pais em Sumaré. Logo no início da entrada da cidade existe um amplo galpão logístico de 13.600m2, denominado PIB Sumaré. Atualmente os principais inquilinos são a Rápido Cometa, Arcelormittal, Itron e Saint-gobain. Parece que a sensação de segurança financeira é maior ao passar ao lado de um grande empreendimento ciente de que recebo uma fração dos aluguéis que essas empresas pagam mensalmente ao Fundo de Investimento Imobiliário Kinea (KNRI11). O fundo é dono da totalidade do imóvel e do qual sou cotista. Possuir tranquilidade com seus ativos é um fator importantíssimo para não perder dinheiro no mercado. Muitas besteiras são feitas na falta de confiança em seus investimentos.

Enfim, esses são pequenas amostras onde presencio mais de perto meus investimentos. Se considerarmos, uma vivência um pouco mais indireta, isso é, o contato com produtos e serviços das empresas que investimos, o leque amplia-se consideravelmente. Eu poderia considerar ainda a Vivo, Itaú e a Grendene, por exemplo.

Vocês, leitores investidores, possuem sensações semelhantes? Quais são seus exemplos?

Claro que também é inevitável possuirmos participações em empresas cujos produtos e serviços não vivenciamos na prática, e isso pode ser bom considerando-se que temos que evitar aproximações excessivas que podem desembocar em decisões emocionais. Sobre isso, apenas mais uma consideração para fechar a postagem.


Apego pessoal à empresa não significa bons investimentos


Apesar da maior confiança em realizar investimentos em empresas tangíveis, onde usamos ou testamos seus produtos, ou ainda em fundos imobiliários próximos de nosso dia a dia, nem sempre isso é suficiente para obtermos sucesso nessa participação. Eu pessoalmente aprendi isso da pior forma.

Uma das minhas maiores perdas em ações foi com uma empresa que admirava muito, consumindo regularmente seus produtos: a Sadia. Suas ações chegaram a cair 35% em um único dia em 2008 devido às perdas cambiais do departamento financeiro, algo totalmente externo à percepção que um consumidor pode ter da empresa. Mesmo depois, ela continuou definhando apesar do anúncio da compra da empresa pela Perdigão.

A renda variável, na carteira de investimentos, está presente na vida. Já a renda fixa, aparentemente segura, é um ativo bem menos acessível. Veja o porquê.
Portanto, não se deixe envolver demais pelos relatos que faço das minhas observações no dia a dia das empresas em que invisto. O intuito foi apenas mostrar que investir em renda variável é um investimento do mundo real, de coisas tangíveis, que podemos usufruir sob várias formas. Ou seja, é um incentivo para agirmos em um próximo passo importantíssimo: a análise do valor real do empreendimento, e consequentemente, o preço que se paga por uma fração desses ativos.

A vivência diária nos permite receber boas informações sobre diversos fundos e empresas, mas é fundamental a análise financeira e fundamentalista do ativo. Mesmo excelentes empresas podem estar em um patamar elevado de preços para uma compra. Ou empresas que não sejam tão boas podem estar em um nível deprimido de preços onde uma compra pode até ser admitida. O estudo (ou a compra de estudos) sempre é necessário.
Dúvidas quando escolher a renda variável ou renda fixa? Veja o artigo "O que é melhor para seus investimentos: renda fixa ou renda variável?" e entenda os dois principais fatores que devem ser analisados antes de uma conclusão.
Nesse novo ambiente de juros baixos que promete (salvo bobagens realizadas pelos brasileiros nas eleições de 2018) ser mais duradouro, investir em renda variável será um diferencial na sua carteira de investimentos e essencial para sua independência financeira. Altos rendimentos com juros altos em renda fixa serão cada vez mais difíceis e essa nova condição exigirá um realinhamento em suas operações. Será que você está pronto para atravessar essa fronteira com sabedoria?


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Veja um artigo importante para iniciar seu controle financeiro, caso ainda não o fez: "O essencial do orçamento e fluxo de caixa. E uma planilha de brinde ao final".

Para saber quanto falta para você alcançar sua independência financeira, leia o artigo "Como saber se você chegou à independência financeira. Matematicamente".

Veja mais artigos sobre investimentos e finanças nessa página.

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