A importância do foco na montagem de uma carteira de investimentos

Montar uma carteira de investimentos bem diversificada exige foco e responsabilidade, sem desvios na fartura de opções que temos hoje no mercado.

Você já reparou a infinidade de opções que temos hoje em dia para qualquer coisa que pensamos em adquirir?

Não é diferente quando decidimos montar a nossa carteira de investimentos. É importante, porém, fugir da armadilha das inúmeras oportunidades e manter o foco, permitindo o controle da situação. 

O objetivo desse texto é organizar melhor essa imensa complexidade do mundo contemporâneo, usando-a sabiamente em nosso favor.


Imagine-se em um hipermercado fazendo a compra do mês. Não é verdade que, se resolver analisar todas as opções que possui para cada aquisição, perderá horas do seu dia? Já faz algum tempo que não compro mais pães, mas me recordo da variedade de opções: pão de iogurte, de castanhas, de aveia, de milho, integral (integrais de fato e integrais de mentira), além da variação dos pesos das embalagens: de 500, 450, 350, 320 gramas... A decisão torna-se um suplício!

E para escolher um bem durável então? Logo trocarei o meu celular de quase três anos (venha Black Friday!). Começo a analisar as opções e me espanto... Para uma mesma empresa, para o mesmo produto, temos mais de 5 variações. Gente, qual Moto G escolho? E parece que esse mês serão lançados mais dois!

Outro exemplo? Vá até uma concessionária de automóveis e veja a quantidade de versões que existe para cada modelo. Em alguns deles as versões mais caras chegam a custar quase o dobro das mais baratas. E estamos falando do mesmo carro!

O fato é que não há motivos para queixar-se dessa situação. A possibilidade de escolhas é algo a comemorar no mundo em que vivemos. Se a Revolução Comunista tivesse dado certo, com certeza teríamos pouquíssimas alternativas - embora facções menos radicais souberam explorar esse fato e nos dominam atualmente de outras maneiras... 

Porém, o meu ponto é outro. Uma vez que também temos inúmeras opções para investir nosso dinheiro, até que ponto elas podem prejudicar nosso desempenho na controle de uma carteira de investimentos? Até onde nosso desempenho pode ser afetado pela falta de foco que eventualmente advém dessa situação? É isso que veremos a seguir.

As consequências do excesso de oportunidades


Montar uma carteira de investimentos bem diversificada exige foco e responsabilidade, sem desvios na fartura de opções que temos hoje no mercado.
Testei nos últimos três meses o Kindle Unlimited. Há poucas opções de bons livros, e um dos escolhidos para leitura foi "O óbvio que ignoramos", de Jacob Petry. O livro possui algumas ideias interessantes, embora seja um pouco cansativo, uma vez que o autor idolatra incessantemente a Gisele Bündchen e seu pai (pesquisando depois vi que ambos são sócios em alguns empreendimentos literários). Tal veneração cria uma certa deidade em algumas pessoas, que, para mim, torna a leitura um tanto hipócrita. Porém, um de seus insights cabe perfeitamente no contexto desse artigo. Para saber mais do livro, clique na figura ao lado.

O autor faz uma análise muito coerente de que o excesso de oportunidades é um dos maiores responsáveis pela mediocridade na vida das pessoas, uma vez que ele consome nossas energias e tira o foco de nossas metas. Sem foco, nossos objetivos não são plenamente alcançados, pois nos tornamos vítimas de uma insegurança contemporânea, de que sempre há uma escolha melhor a seguir.

Essas alternativas muitas vezes nos impedem de agir, pois a dúvida é paralisante. Ela cria uma inércia que faz com que não tomemos rapidamente decisões importantes em nossa vida. Precisamos procurar algumas alternativas, como trabalhar com um número reduzido de padrões de escolhas. E no meu entendimento particular, esses padrões de escolhas devem possuir raízes dentro de nossos padrões de conhecimento, em determinado assunto.

Montar uma carteira de investimentos bem diversificada exige foco e responsabilidade, sem desvios na fartura de opções que temos hoje no mercado.É sobre esse padrão de conhecimento que devemos explorar um dos famosos 7 hábitos das pessoas altamente eficazes, de Stephen Covey: começar com um objetivo claro e específico em mente, que nos ajudará a lidar com toda essa complexidade. Realizar plenamente seus objetivos, de certa forma, é ser capaz de trabalhar com um número reduzido de opções, dentro de seu domínio de entendimento. Clicando no livro ao lado você conhecerá melhor esse sucesso de vendas de Covey.

"Mas André, para se dar bem no mercado financeiro não precisamos conhecer sua complexidade, todas suas opções, para montar uma boa carteira de investimentos?", perguntaria algum leitor. Não. Na verdade devemos escolher somente as alternativas cujos mecanismos e consequências podemos entender satisfatoriamente. Faça um teste: tente explicar como algo funciona para a pessoa ao seu lado. Se não conseguir esclarecer de maneira satisfatória, você ainda não sabe o suficiente e deve estudar mais.

Sempre há, entretanto, a alternativa de confiar em alguém para administrar as melhores escolhas para você. Se não for uma pessoa próxima, é claro que você acabará pagando um pedágio por isso. Mas é muito melhor do que se aventurar no desconhecido.

A leitura desse artigo pode ser completada na página "A alocação de ativos ao alcance de todos", onde mostro como montar uma carteira de investimentos de uma forma muito simplificada, disponível até para leigos na área de finanças.

O "foco" no título do artigo é justamente esse: vamos pensar de forma simples e não se espantar com a abundância de opções que existem hoje no mercado. Foque no que você se sinta confortável. Fique fora de áreas que você não conhece bem.

Abaixo mostro que aprender a essência de uma boa montagem de uma carteira de investimentos não é algo complicado se você pensar de uma maneira mais simples, atentando-se no que é de fato, importante. Aliás, o 3º hábito de Covey também está totalmente relacionado ao tema do texto: "Primeiro o mais importante!"


As múltiplas opções que prejudicam o desempenho das carteiras de investimentos


As pessoas que iniciam no mundo dos investimentos, antes mesmo de pensar onde aplicar seu dinheiro, deparam-se com uma primeira dúvida: que banco ou corretora escolher. Ou... banco ou corretora? Em geral, o brasileiro ainda não conseguiu sair do tradicionalismo, confiando o seu dinheiro apenas aos grandes bancos de varejo. Essa é uma das causas que colaboram para que seu patrimônio não cresça. Bancos grandes de varejo cobram altas tarifas e pagam menos pelos seus investimentos.

Se você quiser conhecer algumas alternativas aos grandes bancos, veja esse artigo onde conto minha transição: "Porque abri uma conta no banco Inter e deixei de usar o Bradesco". Explico todas as vantagens e desvantagens no artigo.

Os potenciais investidores possuem ainda desconfiança em usar corretoras de valores. Desconhecem que existem inúmeras casas bem consolidadas no Brasil e que a maioria dos investimentos, seja em renda fixa ou renda variável, não estará custodiado na corretora. Os títulos do Tesouro Direto e ações de empresas, por exemplo, são custodiados na CBLC. As corretoras são apenas intermediadoras na compra e venda, em uma eventual quebra da empresa, seus investimentos estarão intactos.

Montar uma carteira de investimentos bem diversificada exige foco e responsabilidade, sem desvios na fartura de opções que temos hoje no mercado.Se você está começando a investir e usará inicialmente somente a renda fixa, escolha um banco e uma corretora. Simplifique: nada mais além disso. Existem ao menos 3 boas corretoras que não cobram taxas na aplicação de títulos públicos. Para o banco, escolha um que possibilite boas aplicações em títulos ou fundos privados. Para renda variável, talvez seja interessante usar duas corretoras, para aproveitar melhores tarifas. Ainda farei uma postagem sobre minhas preferências, mas se tiver alguma dúvida, escreva-a nos comentários abaixo que respondo assim que possível.

Vamos agora simplificar as possibilidades na montagem de nossa carteira de investimentos. Quais as melhores opções disponíveis nesse mundo de oportunidades?

É importante ainda lembrar que, antes de começar a investir, você precisa formar um colchão de segurança que suprirá suas necessidades em períodos de vacas magras. Para isso, é importante utilizar uma ferramenta para auxiliar esse processo. Eu expliquei detalhadamente como funciona toda a metodologia inicial de educação financeira, através desse texto: "O essencial do orçamento e fluxo de caixa. E uma planilha de brinde ao final".

Dinheiro de curtíssimo prazo


Defino como curtíssimo prazo os gastos que ocorrem dentro de um período máximo de um mês. Estou nesse caso tratando de quantias menores, equivalentes às nossas despesas mensais. Para manter o foco em coisas importantes, não perca tempo decidindo onde investir esse dinheiro: não invista! Não compensa a preocupação.

Se, por exemplo, você recebe R$ 5mil em sua conta corrente e tem previsão de gastar R$ 3mil até o final do mês, invista apenas a diferença. Você não terá que pensar em resgates, correndo o risco de ver sua conta no vermelho. E a diferença de centavos que perderá não investindo, compensa amplamente sua tranquilidade e a condução de seu foco para algo mais significativo.

Dinheiro de curto prazo


Vamos agora abrir mais o período: de alguns meses a cinco anos. É um montante que será usado para algum objetivo próximo, e não ficará muito tempo investido. Quais as opções que temos para não perdermos o foco nas aplicações e rebalanceamento de nossas carteiras de investimentos? Primeiro precisamos fazer uma subdivisão aqui.

Investimentos para até dois anos de prazo

Escolha títulos privados de bancos médios confiáveis ou bons fundos de investimentos com taxas de administração menores do que 0,5% (são raros). Dependendo do prazo que deixará o montante aplicado, escolha os títulos com um vencimento adequado ao uso que pretende fazer de seu dinheiro. Se estiver inseguro quanto ao prazo, escolha algo com rentabilidade diária.

Não, não use a poupança. Apesar de que a desvantagem de seu rendimento em relação aos títulos indexados ao CDI esteja diminuindo em função da queda dos juros, ela funciona com base em datas de aniversário, isso é, sua liquidez não é diária. Ela pode até render um pouco mais para prazos bem curtos, mas fornece menor flexibilidade nos saques. E você não quer limitar sua liberdade de usar o que é seu por algumas migalhas de reais.

Assim,  escolha CDBs com liquidez diária ou títulos com um ou dois anos de vencimento. Em geral, quanto mais distante o vencimento, melhor o rendimento. Então, não fique pensando muito. Escolha um bom banco e simplifique suas decisões.

Investimentos de 2 até 5 anos de prazo

Novamente, vamos de fundos de investimentos ou títulos públicos de bancos médios. Mas aqui os títulos começam a possuir maiores vantagens, pois, como comentei anteriormente, quanto maior seu prazo, melhor o rendimento. Será muito difícil você encontrar um fundo bancário que renda mais do que uma boa LCI de 5 anos, por exemplo.

Mas avalie o custo-benefício. Se já estiver em um (bom) fundo de investimento, relaxe. Às vezes, é melhor ganhar tranquilidade do que alguns reais a mais ao final. Escolha apenas os títulos mais longos e não perca mais tempo com isso.

Dinheiro de médio prazo


Considero o médio prazo compreendido em uma faixa de 5 a 10 anos. Talvez 15. Na verdade, essa classificação é muito subjetiva e depende muito dos propósitos e da idade do investidor.

Nesse planejamento, podemos começar a mesclar algumas outras possibilidades de investimentos, que poderão ser bem mais rentáveis do que as anteriores.

Em Tesouro Direto, o título IPCA+ torna-se muito atrativo. Mesmo com os juros caindo para a faixa de um dígito eles estão pagando mais de 5% de juros reais ao investidor, sem o desconto do imposto de renda. A vantagem desses títulos não é a taxa em si, mas a sua duração.

Montar uma carteira de investimentos bem diversificada exige foco e responsabilidade, sem desvios na fartura de opções que temos hoje no mercado.
Você não conseguirá uma LCI ou CDB em bancos com prazos maiores de 5 anos. Se você acredita que a economia do país entrará nos eixos nos próximos anos, você precisa "travar" uma taxa ainda alta, comparativamente aos principais países do mundo, para seus investimentos. E isso você consegue fazer, sem maiores riscos, apenas com títulos públicos.

Uma outra opção são as debêntures, que são títulos privados emitidos pelas empresas por prazos entre 3 a 10 anos. Em geral, a remuneração é maior do que os títulos públicos, mas o risco também o é. O investidor fica à mercê da empresa para receber no futuro o que lhe é devido.

Uma opção mais sólida, para quem gosta do mercado imobiliário, é investir em Fundos Imobiliários de tijolo, ou seja, cuja maior parte da remuneração provém dos aluguéis de seus imóveis. Alguns fundos também possuem gestão ativa, onde além de aluguel, geram lucro comprando e vendendo imóveis.

Mas lembre-se do objetivo desse texto: trabalhe com um número de opções compatível com seu grau de conhecimento. Até aqui estamos falando de alternativas relativamente seguras e o mais importante é agir, mantendo o foco no futuro. Não se angustie ou perca muito tempo para decidir. Deseja mais segurança? Pronto: títulos IPCA+ com FIIs de tijolo. Quer colocar um pouco mais de remuneração com risco, alterne com debêntures. Mas faça isso rapidamente! Reveja ainda hoje o seu dinheiro parado lá na poupança ou naquele fundo DI horrível que seu banco oferece. 

Dinheiro de longo prazo e seguros


No horizonte de longo prazo, acima de 10 ou 15 anos, temos um leque mais aberto de opções. Podemos, além dos investimentos citados anteriormente, equilibrar nosso portfólio com renda variável e seguros. Eu, no entanto, sugiro manter sempre a maior parte em renda fixa e fundos imobiliários.

Já fui questionado do porquê investir no Tesouro Direto, ao invés de uma LCI de banco médio, uma vez que a LCI paga muito mais. Essa pergunta já foi respondida no tópico anterior, mas aqui, no longo prazo, a diferença torna-se absoluta. Isso ocorre porque é possível comprar títulos públicos com vencimento para mais de 40 anos. Uma LCI longa vencerá em 5 anos. Pode ser que, em seu vencimento, a reaplicação na mesma LCI seja feito em taxas muito menores do que hoje. Já no Tesouro Direto, elas serão estáveis até o seu vencimento.

Assim, não consigo imaginar uma carteira de longo prazo sem o IPCA+. Só não compre se você acredita que o Brasil quebrará no futuro. É o seu único risco. Caso contrário, você pode não fazer o melhor investimento do mercado, mas receberá uma remuneração de longo prazo bem razoável. E nunca perderá dinheiro, pois o rendimento é real, ou seja, além da inflação.

É interessante considerar ainda a renda variável. Os maiores ganhos estão aqui e a conjuntura hoje no mercado brasileiro aponta para isso. Não entende nada de renda variável? Então simplifique. Foque. Não fique atrás de recomendações para montar uma carteira de ações com várias empresas, pensando que está diminuindo o seu risco. Compre ETFs. Eu falei sobre eles no artigo sobre a montagem da carteira de investimentos.

Possuindo renda variável, não deixe de comprar alguns seguros para diminuir seus riscos. Um fundo de cesta de moedas ou dólar, ouro e até criptomoedas (Bitcoin, Ethereum) pode ser uma boa alternativa. Lembre-se: não veja esses ativos como investimentos. Veja como seguros. Expliquei a importância dos seguros no artigo sobre a minha forma de investir em dólar.

O importante aqui é: faça poucas opções se você não estará sempre observando o mercado financeiro. Além de facilitar o seu acompanhamento, deixará você mais tranquilo, focado e lhe permitirá um melhor controle sobre seu patrimônio.

Palavras finais


Você não vai aprender tudo de uma vez. E no início, é normal exagerar um pouco nas escolhas ou então, perceber que poderia ter sido menos conservador. Os extremos das opções são permanentemente testados em nossas vidas. O importante é perceber quando a corda estica demais e voltar a percorrer o caminho do equilíbrio.

Há muitos casos de pessoas que percebem que chegou a hora de fazer o dinheiro render mais. Notaram que perderam muito em escolhas erradas no passado e querem dar a volta por cima. Porém, essa volta por cima não deve estar carregada de uma arrogância juvenil, uma necessidade de ser especialista em tudo. Elas devem usar justamente o tempo que tiveram, como o seu melhor professor.

Se você pensar que para ser bem-sucedido você precisa fazer de tudo um pouco, está no caminho errado. Diminua suas opções de forma que esteja confortável. Não se sinta "perdido", mas sinta-se protagonista em sua carteira de investimentos. O benefício a longo prazo, seja como conhecimento para você ou rendimento ao seu dinheiro, é imenso.

Assim, descubra o seu perfil. Observe qual a melhor estratégia em que você deve aplicar tempo e energia de uma forma sustentável e concentre-se nesse método. Cada um de nós temos personalidades, conhecimentos e contextos de vida diferentes. Tenho certeza que existe uma boa estratégia que se ajusta perfeitamente a você. E mantenha o foco. Sempre.


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