O Estado e a tática do medo no passado, no presente e no futuro

Desde o início do século XVI, Maquiavel já mostrava que o objetivo principal do Estado é a manutenção do poder de seus asseclas. E para isso, uma das táticas mais usadas para tal propósito foi a disseminação do medo entre seus súditos. Uma tática ainda muito atual.

Desde o início do século XVI, Maquiavel já mostrava que o objetivo principal do Estado é a manutenção do poder de seus asseclas. E para isso, uma das táticas mais usadas para tal propósito foi a disseminação do medo entre seus súditos. Uma tática ainda muito atual.


Terminei recentemente de ler um livro (Berlim: 1961) que, apesar de denso, demonstra com notável objetividade os fatos e pormenores do tenso ano de 1961. Revela como a Guerra Fria chegava ao seu ápice com a construção do Muro de Berlim e tanques americanos e soviéticos provocando-se frente à frente no checkpoint Charlie, no enclave capitalista dentro do bloco soviético. Esse episódio só rivalizaria em tensão entre as superpotências da época com a Crise dos Mísseis, em Cuba, no ano seguinte.

O livro é fantástico para os amantes da história, e carrega uma densa bibliografia para estudos posteriores na compreensão dos motivos que levaram à essa situação. Mostra claramente um presidente Kennedy confuso, inseguro e fraco em seu primeiro ano de governo, a acirrada atividade de Khrushchov para tornar a URSS uma potência admirada e reconhecida em seu tempo, um Adenauer saudosista da mão firme do ex-presidente americano Eisenhower e a hesitação do primeiro-ministro inglês Macmillan e do presidente francês De Gaulle em tratar a situação alemã.

Não é objetivo desse texto fazer uma resenha do livro. Não simpatizo com resenhas. Se curtas, trazem o risco de serem rasas e não ilustrarem claramente a obra. Se longas, trazem a ameaça de as opiniões próprias do autor (da resenha) sobrepor-se às opiniões do autor do livro. A imparcialidade total é algo tão inatingível quanto raro.

A motivação em escrevê-lo partiu de uma parte do texto onde Walter Ulbricht, líder socialista da então Alemanha Oriental, irritou-se com um pedido de eleições livres feitas por um trabalhador em uma das reuniões em uma fábrica de cabos. Observe a tática utilizada por Ulbricht para desencorajar pensamentos democráticos:

“Eleições livres!”, Ulbricht exclamou e depois correu os olhos pelo salão. “O que é que você quer eleger livremente? […] É o povo que lhe pergunta!” A essa altura Wismach já se munira da coragem de quem havia ido longe demais para voltar atrás. “Você faz alguma ideia do que o povo realmente pensa?”, berrou, ciente de que a maioria de seus colegas estavam paralisados, as mãos imóveis ao longo do corpo. Ninguém o apoiaria.
Ulbricht fez um gesto de desprezo e retrucou que foram as eleições livres, nas décadas de 1920 e 1930, que levaram a Alemanha ao domínio de Hitler e à Segunda Guerra Mundial. “Agora eu lhes pergunto: vocês querem ir por esse mesmo caminho?”
“ Nein , Nein ”, respondeu uma minoria fiel ao partido. A cada réplica de Ulbricht e a cada um de seus pedidos de apoio, esse grupo ruidosamente o encorajava.
Outros operários, que poderiam apoiar Wismach — provavelmente a maioria —, permaneciam em silêncio. Sabiam que, se agissem de outra forma, poderiam sofrer o mesmo castigo que o colega certamente sofreria.
“O único importunador que aqui se encontra acha que está mostrando muita coragem!”, Ulbricht esbravejou. “Tenha a coragem de lutar contra o militarismo alemão!”
O grupo fiel ao partido novamente o aclamou.
“Quem é a favor de eleições livres é a favor dos generais de Hitler!”, Ulbricht gritou, o rosto rubro. A multidão aplaudiu pela última vez, enquanto o líder deixava o salão.

Ulbricht tratou o assunto da mesma forma que os ditadores e proto-ditadores atuais. Uma alusão a um inimigo comum. A volta a um passado sombrio, sustentando a tática do medo e da intimidação. A crença em algo temível e que pode ser evitado apenas por eles justifica todos os absurdos que cometem.  A tática do medo desvia nossas percepções racionais, uma vez que abrange uma natureza intuitiva de nossos antepassados, relacionando-se com nosso instinto de sobrevivência. E por isso ela é tão efetiva. Foi empregada no passado, ocorre no presente e sobrevirá ao futuro.


A tática do medo no passado


A concepção do Estado sempre necessitou da estratégia de infligir o medo na população para a manutenção do poder pelos seus dirigentes. Ambos coexistem na história e são ao mesmo tempo causa e consequência um do outro. É fácil entender que tais atitudes são uma consequência direta do Estado e da manutenção do poder. Não é tão fácil compreender, entretanto, para aqueles que acreditam no poder onipotente do Estado, entidade que é agigantada como consequência do medo assentado na população em sua eventual ausência. Um alimenta-se do outro. O medo da carência, o medo da responsabilidade, o medo da incapacidade faz com que a maioria das pessoas confortam-se com a existência de uma entidade que, acreditam, está lá para fazer o bem para elas. Pura ilusão.

Embora dispomos de uma literatura política antiga, mesmo que muito amalgamada à filosofia e à religião, foi nas primeiras décadas da Idade Moderna que a Maquiavel inaugurou a literatura essencialmente política com seu clássico "O Príncipe". Muitos veem Maquiavel como alguém insolente e sarcástico, em função dos conselhos que dá aos aspirantes e detentores do poder. Muitos cogitam uma ampla falta de ética em suas opiniões. Mas essa visão contém essencialmente a visão do Estado como uma necessidade benevolente.

O objetivo do Estado é apenas um: manter e aumentar o seu poder. Seja por meios lícitos (em uma legislação que ele próprio foi protagonista) ou ilícitos. E é apenas isso que move as peças humanas inseridas em seu contexto. Consciente ou inconscientemente. E os conselhos dados por Maquiavel vão ao cerne dessa demanda. Os discursos dos membros pertencentes ao Estado são engenhosos, são emotivos, são persuasivos, mas, no fundo, seus objetivos são sempre os mesmos: propagar a manutenção do status quo, independente dos grupos que se alternam do poder. Maquiavel estava correto, ele prescrevia exatamente o que era necessário para manter-se no poder, pois entendia que esse era o objetivo essencial do Estado.

O socialista-comunista Ulbricht evocou o passado recente do medo em relação ao nacional-socialismo de Hitler. Hitler evocou o medo nos alemães frente ao capitalismo judeu* e ao bolchevismo-comunista europeu. Os revolucionários russos evocaram o medo dos trabalhadores perante aos grandes capitalistas da época. E assim o ciclo permanece. A história demonstra que o propósito maior do Estado não é dar condições melhores de vida para ninguém, mas sim adquirir mais poder, autoridade e influência. E isso não mudou nos dias de hoje, embora as formas de dissimulação avançaram intensamente.


A tática do medo no presente


Excetuando-se países africanos, a tática do medo nos tempos atuais vem concentrando-se de uma forma bem peculiar na América Latina, em particular nos países do eixo bolivarianista, como Venezuela, Argentina, Bolívia, Equador e Brasil. Nos dois primeiros, as últimas eleições foram um alento à liberdade e à democracia, mas acompanharemos os próximos capítulos. A estratégia populista desses governos consiste em evocar o temor da pobreza entre as classes menos favorecidas e perpetuar-se no poder. A história mostra, entretanto, que só quem está implicado dentro das redes dos privilégios estatais, ou possuem um entendimento muito raso do processo político, aceita tal tipo de discurso.

Vamos permanecer, entretanto, restritos ao Brasil, que muitos julgam alheio a essas artimanhas "progressistas". Mas será? O leitor lembra do estelionato eleitoral de Dilma e do PT nas últimas eleições? Das vinhetas dizendo que tudo ia ficar pior se o partido saísse do poder? Das mentiras estampadas de que tudo ia bem e que os mais pobres nada precisariam temer? Pois é... Espero que você não tenha sido um iludido ou um ingênuo que tenha acreditado nisso. A depressão econômica brasileira e a alta inflação, que atingem muito mais as camadas menos favorecidas, estão aí e não podem ser vistas com surpresa, pois avisos não faltaram. De milhares de pessoas e também desse blog.

Mas da mesma forma que a maioria dos eleitores da Dilma hoje constroem mil desculpas esfarrapadas tentando defender o indefensável, são resistentes a aceitar que o governo que os representa utiliza as mesmas táticas reveladas por Maquiavel cinco séculos atrás. As hostilidades deflagradas entre governo e aliados pelo impeachment, mostram claramente o único objetivo do governo: manter-se no poder e preservar toda a rede de privilégios que alimenta seus apoiadores. O Brasil e os brasileiros estarão sempre em segundo plano.


A tática do medo no futuro


Apesar dos bons resultados das últimas eleições na América Latina, qual será os próximos capítulos da tática do medo? O leitor acha que os kirchneristas e os chavistas vão aceitar de bom grado a vitória da oposição nas últimas eleições? Muito pelo contrário. A situação será muito turbulenta. Uma vez que a esquerda é altamente versada em destruir a economia dos países, ajustes terão que ser realizados. E tais ajustes serão os pretextos para promover a desestabilização política, uma vez que, como tenho frisado, o poder é mais importante.

aA tática do medo seletiva: protestos para melhoria na educação em São Paulo
Alguém se lembra da época em que o PT era oposição? Em geral, quem tem menos de 30 anos fica estarrecida com o ódio da oposição hoje no Brasil, mas eles nunca conheceram o PT na década de 90. Muito do ódio que ocorre no Brasil foi plantado pelo maior (e hoje felizmente o único e em grande decadência) líder petista, o ex-presidente Lula. Tais métodos serão retomados em um futuro próximo, seja com o final feliz do impeachment, seja com o apeamento do PT nas próximas eleições.

Não é necessário, todavia, prever o futuro para aceitar tal fato. Veja o que ocorre atualmente no Estado de São Paulo. Os petistas nunca se conformaram em ser mal votados entre os paulistas. Aqui, eles sempre fizeram o diabo para desestabilizar o governo. Não com práticas democráticas, mas sim com práticas ditatoriais, seja através do sindicato dos professores (Apeoesp) ou através de movimentos como o MST ou MTST, todos linhas auxiliares do petismo. Percebe-se claramente que esses protestos não possuem a real intenção de melhorar nada, uma vez que eles são totalmente seletivos, com pode ser visto pela vinheta ao lado.

Sim, a população sempre tem o poder e a chance de mudar seus governos e esperar que um dia, a ideia do Estado babá seja superada. Mas aqui na América Latina, o processo tende a demorar um pouco mais. Desde a década de 70, a revolução gramsciana ganhou força e posteriormente dominou o debate por aqui, primeiro através do sistema de educação e logo em seguida, através da imprensa, que tem chegado aos limites da hipocrisia nessa década.

Não será fácil extirpar esse câncer de aspirações ditatoriais. A defesa da democracia é apenas da boca para fora. O voto em si vai continuar existindo, mas a ideia será sempre nos impor um modelo politicamente correto e ridicularizar opiniões diversas. Essas são as novas armas para a cooptação da sociedade e para a manutenção do poder. A batalha ainda será longa e exaustiva.

* embora Hitler fizesse uma grande confusão entre a economia praticada pelos judeus e o marxismo.
  

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