Sua desilusão com os políticos provém da expectativa em relação ao Estado

Como explicar a expectativa em relação ao Estado mesmo frente à incapacidade, às ações e à ética dos políticos e burocratas que o compõem?

Como explicar a expectativa em relação ao Estado mesmo frente à incapacidade, às ações e à ética dos políticos e burocratas que o compõem?


Expectativas são facas de dois gumes: podemos desfrutar as delícias em sua realização ou sofrer as dores de sua não consumação. É assim nas expectativas que criamos com nosso par amoroso, em um novo emprego ou na compra do último gadget digital. É também assim na política, quando votamos e esperamos que tais representantes exerçam nossas aspirações no trato, na distribuição do dinheiro público e no retorno de benefícios à sociedade. Expectativa, entretanto, impossível de realizar-se.

Normalmente, a origem da desilusão é relacionada à quebra de promessas realizadas durante as eleições e na sequência do mandato político. Promessas que são feitas justamente para suprir as expectativas dos eleitores. Assim, a mentira é uma necessidade política demandada pelo próprio eleitor. O desapontamento que vem depois é apenas uma consequência, ao final, dessa expectativa. O fato é que os políticos dificilmente vão ajudar você, e os motivos resumem-se por (má) vontade, mas também por (falta de) capacidade. Primeiramente, eles possuem interesses próprios, que incluem a manutenção da ordem vigente, iludindo o eleitor na crença que a estrutura paquidérmica estatal é algo benéfica a ele próprio. Porém também devemos atentar que os políticos não têm como beneficiar a maioria das pessoas, considerando a sociedade em uma visão mais ampla. Mas daí o leitor pensa: qual é, então, a solução?

Tal dúvida provém da incoerência em acreditar no Estado como um provedor na economia ou benfeitor social. É matematicamente impossível qualquer organização trazer progresso a um corpo social quando a extração conjunta de recursos é maior do que se provê a esse grupo. Os salários, as aposentadorias, os atravessadores, as propinas e todo tipo de corrupção sempre serão abatidos dessa conta. Se acrescentarmos o processo histórico sui generis do patrimonialismo brasileiro, onde os limites entre o público e privado confundem-se constantemente, evidencia-se claramente a situação natural: mais Estado acaba gerando menos desenvolvimento econômico e social.

Como explicar a expectativa em relação ao Estado mesmo frente à incapacidade, às ações e à ética dos políticos e burocratas que o compõem?
Mas essa não é a mentalidade padrão dos brasileiros. Aqui, idolatra-se a figura do Estado, o ser supremo que existe para resolver todos os seus problemas. Mas como não considerar que esse ser supremo é dirigido pelos políticos? Aqueles mesmos políticos que em geral contém alto grau de impopularidade? As pessoas possuem uma dificuldade enorme para aceitar tal incoerência e separam de forma bizarra o governo e os políticos que o compõem, estimulando um oportuno estudo de Bruno Garschagen para explicar porque os brasileiros não confiam nos políticos, mas amam o Estado. 

As quebras de expectativas que pululam na mente dos eleitores a cada biênio eleitoral provém assim da incapacidade em associar causas e consequências. Se já não é possível esperar benefícios do Estado enquanto tal, ainda seria menos possível idealizar um Estado benigno dirigido pelas pessoas a quem temos tanto desapreço. Bom senso, não é? Mas que falta à grande parte da população brasileira.

Vários setores de nossa sociedade já vem alertando há alguns anos a necessidade de uma mudança de modelo mental, a urgência em demonstrar com fatos óbvios que o Estado é prejudicial e que, além de não ser um agente de desenvolvimento per se, atropela um dos maiores bens que devemos preservar como indivíduo: a liberdade. Esse movimento, embora eu não seja afeito ao termo "revolução", pode ser entendido como uma "contra-revolução cultural" em alusão ao pensamento gramscista, e vem sendo propagando em diversos meios dispondo da imensa ajuda do novo mundo digital, onde a informação não fica mais restrita a poucas empresas de comunicação.

A mudança na esfera cultural fará com que novos políticos, abertos a essas ideias, sejam eleitos para que se possa reduzir institucionalmente o poder estatal e consequentemente, o poder que uma pequena classe dominante de burocratas e apaziguados, possui nesse país. Descentralizar o poder e empoderar as pessoas em detrimento a qualquer tipo de coletivismo, é a base para o sucesso de cada um de nós.


Sobre o individual e o coletivo, veja o livro A Nascente, de Ayn Rand.

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Comentários

  1. Eu não tenho muita expectativa desse estado brasileiro atual, até no meu íntimo alimento a existência de uma estado que garantisse o bem estar e a harmonia da sociedade, acho que no fundo todo mundo deseja isso, da sua maneira, dentro da sua visão. Mas a visão que o artigo traz é bem interessante, realmente esse excesso de expectativa do povo em relação ao estado, como fomentador de recursos para sua realização pessoal é errada, as pessoas devem buscar isso através do seu trabalho e esforço, isso deveria estar claro para a população. Então precisamo criar na verdade uma relação de economia de mercado justa, onde quem trabalhe possa se realizar, criando assim um ambiente próprio para que as idéias ligadas a liberdade individual prosperem e seja a bandeira de uma sociedade justa; lembrando sempre às criaturas que direitos andam ao lado de obrigações, um não pode existir sem o outro.
    Mas na conjuntura atual acho difícil que esse sentimento floresça em relação ao estado brasileiro atual, pois mesmo não tendo expectativas em relação à ele, sua presença se faz presente, através do excesso de tributação, da sua ineficiência e do fisiologismo das autoridades públicas. O POPULISMO NECESSITA DE UMA CLASSE POBRE E MISERÁVEL PARA EXISTIR, porque não tem inteligência e talento para grandes realizações e assim angariar apoio das classes mais empreendedoras da sociedade.

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    1. "no meu íntimo alimento a existência de uma estado que garantisse o bem estar e a harmonia da sociedade, acho que no fundo todo mundo deseja isso, da sua maneira, dentro da sua visão" - é justamente essa visão que combato no artigo e no blog: o Estado bondoso é uma ilusão, e essa ilusão mantém nossa mente aprisionada impedindo de ver a liberdade que nos é suprimida.

      "Então precisamo criar na verdade uma relação de economia de mercado justa, onde quem trabalhe possa se realizar, criando assim um ambiente próprio para que as idéias ligadas a liberdade individual prosperem e seja a bandeira de uma sociedade justa" - isso só é possível com menos Estado.

      Concordo totalmente e parcialmente com os demais comentários. Obrigado!

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