Subversão ideológica - o caminho para um estado totalitário

Como a teoria de subversão ideológica de Yuri Besmenov explica os métodos utilizados pela Revolução Cultural no despertar de um estado totalitário.

Como a teoria de subversão ideológica de Yuri Besmenov ajuda a elucidar os métodos utilizados pelos partidários da Revolução Cultural, o despertar de um estado totalitário e a consequente asfixia das liberdades individuais.


Yuri Besmenov é um ex-agente da KGB, serviço secreto da antiga União Soviética, mas cuja existência sob uma outra roupagem ainda é defendida por muitos estudiosos. Analisando-se as recentes movimentações da Rússia e um desvelamento mais evidente e crescente do movimento eurasiano, não é algo difícil de acreditar. Afinal, quanto mais poderoso e onipresente é um órgão, mais ele terá a força de negar sua própria existência. Mas não é sobre eurasianismo que escrevo hoje, e sim sobre as táticas que um estado totalitário usa para erradicar a liberdade de seus cidadãos. A importância do tema advém do fato de que a compreensão desse processo e a vigilância constante são altamente necessários para resguardar nossos direitos naturais. Algo que ninguém devia desejar perder.

Besmenov, após sua deserção para o Ocidente, ficou famoso nos anos 80 por revelar tais táticas, mas é ignorado solenemente por grande parte da mídia na análise política. Tenho insistido que em diversos países (muitos bem próximos), o grupo que se encontra no poder não respeita a liberdade e a democracia de fato, mas age sob a estratégia da revolução cultural, fazendo com que a maioria das pessoas acreditem em premissas como a inevitabilidade da presença do Estado em suas vidas sem perceber que essa crença a levará fatalmente aos grilhões de seus pensamentos e à supressão de sua própria autonomia. Besmenov apresenta essas técnicas empregadas pelo Estado através do conceito de "subversão". Independente do nome utilizado, o objetivo é a manipulação cultural e psicológica das massas propiciando o estabelecimento de regimes revolucionários.

Como falamos de Besmenov, vamos manter o termo por ele usado. Diz ele que a subversão não é percebida através de seu conceito negativo, uma vez que está camuflada pela manipulação do termo (lembrar de George Orwell e de seu termo duplipensar pode ajudar tal percepção para quem se dá o tempo e o trabalho de observá-la - Besmenov considerava-se, inclusive, um novo Winston Smith, protagonista do romance 1984). Segundo ele, os subversores não são bandidos que queimam ônibus. O meio belicoso para se atingir tal fim não é o mais eficiente. Subversores podem estar ocultos sob as atividades de um jornalista, um professor, um ator, os quais possuem o aparato estabelecido como moral e legal para subverter as mentes que aceitam tal manipulação. Mentes que, em cada consentimento, reforçam ainda mais o agente manipulador. A maior vitória que pode existir em uma guerra é não despertar a luta física. E o ponto-chave do sucesso é garantir que a grande maioria desses agentes manipuladores não possuam alguma consciência que fazem esse tipo de papel.

Como a teoria de subversão ideológica de Yuri Besmenov explica os métodos utilizados pela Revolução Cultural no despertar de um estado totalitário.
Mesmo arrependendo-se depois, a mensagem foi dada
O ponto primordial para vencer tal guerra é liquidar o inimigo através de seus próprios valores, de forma que os nossos próprios valores não pareçam tão ruins quanto o são, e muitas vezes até desejáveis em tal comparação. A primeira etapa compreende a desmoralização da sociedade através de um tempo suficiente para educar ao menos uma geração de estudantes (15 a 20 anos), estabelecendo e construindo sua mentalidade e sua personalidade, que refletirá adiante em uma ideologia. Tais agentes citados anteriormente são as pessoas-chave para os ataques aos conceitos de auto-responsabilidade, à crença e à família. São os instrumentos para os golpes que estimulam a transposição da lei e da ordem e a inversão da ética e da moral, realizadas através de vários meios como o sistema educacional ou a mídia, onde a opinião pública é formada e moldada. Tais movimentos (ilustrados pelos chamados idiotas úteis) já ocorrem normalmente em todas as sociedades, mas tais agentes (reforçando, muitos deles alheios ao processo maior) estimulam e potencializam exatamente esses movimentos, auxiliando a principal força da subversão a tirar vantagem e faturar em cima deles. Apoiadores de blackblocks, MPL, MTST e partidos revolucionários são alguns de nossos exemplos.

Tais idiotas úteis são o meio principal para a segunda etapa da subversão: a desestabilização do sistema, com o ataque e aparelhamento das instituições, com a desorganização econômica, com a necessidade de atacar o sistema político e social clamando por "reformas". Uma etapa onde os acordos deixam de ser o objetivo final para tornarem-se em um confronto, uma violência, que começam a ser vistos como algo normal, suportado pela etapa anterior da desmoralização do sistema social estabelecido. Nesse ponto entra o conceito de divisão. Dividir as raças, as classes, os direitos, o bem e o mal, num maniqueísmo que beira à loucura. Algo familiar para o leitor?

Segue-se assim, a etapa de crise, onde a estrutura anteriormente edificada nos órgãos legítimos de poder não funciona mais. É o momento de implantar estruturas de poder paralelas, como comitês não eleitos. Quem já se familiarizou com o Decreto 8.243 que foi outorgado pelo PT e já derrubado na Câmara entende do que estou falando. Quem está ciente do custeio governamental para a MAV, idem. Se o poder total lhes é negado pela democracia, tentam estabelecer um poder alternativo. O Brasil encontra-se entre o segundo e o terceiro estágio: estamos lutando contra isso, reforçados nos últimos meses por uma crescente oposição aos desmandos do governo petista. Atenção especial deve ser feita nessa etapa, pois a população dividida, procura um salvador, cujo sucesso pode manifestar-se em qualquer um dos lados dessa divisão. A implantação de uma nova ordem seria a consolidação da última etapa da subversão: a normalização, ironicamente entendida como o restabelecimento da sociedade. À força, naturalmente. E com os meios de exploração do país ampliados.

Os vídeos completos de Besmenov foram agrupados nesse link do You Tube e são excelentes para entender a fundo tais conceitos. Em alguns deles, o responsável pela edição do vídeo relacionou-os com alguns momentos que vivemos hoje no Brasil. Pela internet, é fácil achar fragmentos de tais palestras e entrevistas, caso o leitor não possua muito tempo. Mas é revelador como ele explica a substituição da responsabilidade individual por uma tal responsabilidade coletiva, capitaneada pelos burocratas do governo, com o aumento crescente de seu poder. Como os órgãos e as instituições públicas, que deveriam servir as pessoas, servem à consolidação de um poder ainda maior. Como o relativismo cultural corrói, dia a dia, os pilares éticos da sociedade. Como a ideologia revela que os ocultos motivos do desejo de mudar o mundo não é o tão almejado "bem comum", mas simplesmente, investidas para uma maior dominação. Como a igualdade deveria ser entendida a partir de uma condição padrão*, um direito às mesmas oportunidades e não como uma condição de existência. Como a violência não pode justificar uma suposta justiça social.

Meu objetivo não é estender ainda mais o artigo, pois desejo incentivar a visualização do vídeo, uma aula de racionalidade, realizado de forma didática e principalmente, analisando ambos lados da moeda. Sou crítico em alguns aspectos, principalmente quando ele defende algum grau de intervenção externa em países em crise e na supressão de direitos de grupos específicos, uma vez que não concordo com a generalização de rótulos. O não atingimento dessa fase depende, entretanto, da adoção anterior de medidas racionais por uma parte da sociedade que entenda esse processo da implantação da revolução cultural e não seja apenas a sua vítima. E é esse tipo de conhecimento e de superioridade moral que intenciono disseminar.

*Nesse ponto ele associa algumas condições prévias do indivíduo (ser criminoso ou não) como um fator de discórdia à uma suposta igualdade às oportunidades, embora o contexto maior seja bem evidente.

Se o leitor se empolgar mais, veja o comentário sobre um discurso no livro A Nascente, de Ayn Rand.


Mais artigos sobre liberdade aqui.



Comentários

  1. Olá!
    Isso se parece muito com o cenário que vemos no Brasil aqui e é alarmante, pois já estamos em uma etapa um tanto quanto avançada. Vi um vídeo da palestra do Yuri Besmenov no youtube e acabei parando aqui no blog pesquisando um pouco mais.
    Me interessei pelo tema, além da palestra do Besmenov, você poderia me recomendar alguns livros ou outras fontes de informação André?
    Dei uma olhada no blog e gostei muito dele, deixo minha sugestão de criar uma sessão no blog sugerindo livros para os mais interessados e "sedentos por conhecimento".
    Parabéns pelo ótimo blog e muito obrigado se puder me ajudar.

    -Rubens

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Rubens. Obrigado pelas palavras. Aqui no blog eu já sugeri alguns livros que tratam sobre a tentação totalitária do Estado forte, embora não sejam específicos do Besmenov. Veja os marcadores ("Livros") no alto e à direita da página. Eu ainda não escrevi sobre 1984, que é outro livro interessante para leitura, e a Revolta de Atlas, que mostra como o Estado pode destruir a capacidade criadora e a riqueza da sociedade. Textos sobre o Estado há muitos, vc pode usar os mesmos marcadores.

      Grande abraço e boas leituras. Precisamos de pessoas cada vez mais esclarecidas nessa idiocracia que vivemos.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Liberdade e poder: os direitos naturais de John Locke revisitados (1)

Porque abri uma conta no banco Inter e deixei de usar o Bradesco

"Dieta" paleo, low carb e jejum intermitente: minhas experiências