Cartas a um eleitor petista (III): a mentira e o estelionato eleitoral

Os limites no apoio da mentira, da hipocrisia e do vale-tudo no estelionato eleitoral promovido pelo PT frente à formação da ética, valores e ações morais.

Qual o limite para aceitar um estelionato eleitoral? Qual a fronteira que delimita o apoio da mentira, da hipocrisia e do vale-tudo na formação de sua ética, valores e ações morais?


Caro eleitor petista, seguimos em nosso diálogo nessa terceira carta. Já passamos 30 dias do momento em que seu voto foi contabilizado a favor de mais um período de permanência do PT no governo e já podemos analisar a coerência e a moral do partido em algumas decisões implantadas, imediatamente após a contagem dos votos. Decisões que mostram desonestidade, cinismo e hipocrisia.

Considerando que seu voto foi consciente, eleitor, você deve ter votado a favor de um modelo. Ou contra um modelo adversário. Como você sente-se então, com o governo tomando várias decisões que, na campanha, foram atribuídas à futuras ações de seus adversários, levando ao pé da letra o discurso de Lênin de acusar os adversários daquilo que você pratica. Você compactua com esse tipo de fraude? Ficará em silêncio condescendendo com esse estelionato eleitoral ou levantará a voz em protesto ao governo que você elegeu?

Você recorda-se, na campanha eleitoral, quando a Dilma dizia que era o PSDB o partido que pregava o aumento de juros? Segundo ela, não era necessário tal ajuste, pois ele beneficiaria apenas banqueiros e atrapalharia a concessão de crédito para a população, correto? Porém ela autorizou que o BC os aumentasse três dias após a eleição. Isso deixa evidente que a inflação não está sob controle como a então candidata afirmava repetidamente nas telinhas. Mas talvez você tenha acreditado nela, eleitor. E possivelmente o seu entendimento é que, como a ação, "progressista", veio do PT, deve ter sido para o bem dos pobres. Caso fosse uma decisão, "reacionária", da equipe econômica do PSDB seria exclusivamente para o bem dos banqueiros e da elite branca. A lógica é a maior vítima do pensamento de esquerda.

O ajuste fiscal, que o candidato da oposição reiterava continuamente como sendo necessário, foi vilipendiado pela candidata do PT. Segundo ela, não seria necessário algo profundo, pois o importante era manter o "nível de emprego". Mas nos últimos 30 dias, aumentos de gasolina e de energia revelaram que não era bem assim. Recentemente, seu ministro demitido da economia disse que tal ajuste passará por uma redução de benefícios sociais como seguro-desemprego e abonos salariais e pasmem: disse também que o governo reduzirá as linhas de financiamento dos bancos públicos! Mas a então candidata não dizia continuamente nos debates pré-eleições que quem queria reduzir o papel dos bancos públicos eram seus opositores? Você não se incomoda com tal tipo de hipocrisia, eleitor? Possivelmente o seu bolso se incomodará, pois já foram anunciados aumentos de impostos como o IPI e prepara-se agora a reativação da CIDE. Sua lógica também deveria constranger-se, uma vez que as próprias metas serão alteradas para conter o desequilíbrio fiscal. Afinal, a febre resolve-se com a quebra do termômetro, correto?

Entretanto, a maior imoralidade foi a obstrução na divulgação de indicadores antes da votação no segundo turno pelo governo, demonstrando que sua ética não comporta princípios morais elevados. Tais revelações vieram à tona excepcionalmente após a contagem dos votos e expuseram, entre outros indicadores, o aumento da miséria no país, o rombo recorde nas contas do governo, o grande aumento do desmatamento na Amazônia e muitas outras, que mostram de forma muito clara a péssima situação da economia, que alardeei já muito tempo atrás, no artigo 2015 - A necessidade de um grande ajuste econômico e moral no Brasil. O desemprego, mesmo entendendo-se de que sua realidade é expressa por um indicador furado, será o próximo alvo, antecipado visto à pífia criação de vagas em outubro. Esse aspecto do estelionato eleitoral, eleitor, você aprova como algo necessário em uma eleição?

E sobre alguns dos ministros anunciados hoje, caro amigo? Vai ao encontro de suas expectativas? Levy, o novo ministro da Fazenda compartilha das mesmas ideias dos economistas do PSDB e do PSB, tão demonizados na campanha eleitoral pelo PT. Entrou no governo no segundo mandato do governo FHC junto à equipe de Armínio Fraga, logo após trabalhar durante 7 anos no FMI. Academicamente, está inclusive à direita de tais economistas, pois é doutor pela Universidade de Chicago, berço de importantes liberais como o Prêmio Nobel Milton Friedmann, já citado nesse blog. E repare: entrou no governo por indicação de Luiz Trabuco, banqueiro e presidente do Bradesco, que foi convidado e não aceitou o cargo (e pouco tempo atrás, na campanha, foi dito que nomear banqueiros na economia tiraria a comida da mesa dos mais pobres - deliciosa ironia!). E sobre os ministérios atribuídos à Kátia Abreu e Armando Monteiro Neto? Pois é eleitor... Será que se Dilma e o PT tivessem tido a honestidade de anunciar ao menos parte de sua equipe antes da eleição, como fez Aécio e Marina, ela teria se elegido? Mas se tivesse feito, como ela poderia criticar tanto a escolha de seus adversários, não é? Esse é o verdadeiro estelionato eleitoral que você herdou, caro eleitor!

Mas veja bem: apesar de eu ser radicalmente contra o modelo de ocultação de indicadores para benefício próprio comentado dois parágrafos atrás, quero deixar claro que não me oponho a algumas das medidas recentemente anunciadas. O ponto em questão é que a intenção da implementação de tais atitudes era anteriormente atribuída aos seus adversários políticos. Você, que votou no PT, esperava em tão pouco tempo, tantas medidas contrárias as que lhe foram prometidas durante a campanha? Está satisfeito? Vai cobrar alguma coerência dos seus eleitos ou vai tornar-se conivente com tal estelionato eleitoral, mantendo-se em silêncio e acreditando que qualquer coisa é permitida para a manutenção do poder? Vai transferir sua responsabilidade e não considerará tais aplicações morais que estão a configurar uma nova ética nesse país? Ou vai apenas fazer o jogo do seu partido e focar apenas nas medidas que de fato implantarão o projeto de poder do PT?

Primeira carta: sobre ditadura e liberdade
Segunda carta: sobre corrupção e poder


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