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Quakers: os pioneiros nas ideias de liberdade na América

Os quakers como pioneiros nas ideias de liberdade na América

Os quakers na Inglaterra


As reformas religiosas na Europa no século XVI viabilizaram o surgimento de vários grupos cristãos que desafiavam tanto os dogmas do catolicismo quanto as ideias do anglicanismo na Inglaterra. A constituição de um desses grupos, os quakers (ou “sociedade de amigos”) possuiu raízes através das ideias de George Fox em 1647 e o seu propósito estabelecia a consciência individual, e não as escrituras sagradas, como a última autoridade em questões morais, potencializando o exercício da liberdade individual do indivíduo. Esse grupo tinha como característica o tratamento entre seus membros de maneira informal, sem títulos, sendo cada pessoa o sacerdote de si mesmo, não existindo assim, a necessidade de clero ou igrejas. Para eles, Deus era um ser benevolente e permitia a salvação a todos que a procurassem. Os quakers entraram do mesmo modo, em confronto com outros grupos cristãos reformistas, como os puritanos calvinistas, que pregavam a predestinação como meio para a salvação, que consideravam-se eles mesmos um grupo de eleitos por Deus para habitar uma nova terra prometida.

Não é difícil avaliar que conflitos entre esses dois grupos eram corriqueiros, principalmente se considerarmos que viviam em uma época na história da Inglaterra onde a religião estava inserida em uma briga sucessiva do trono. Os quakers sofriam constantes perseguições pelos anglicanos e católicos, padecendo sob os rótulos de bruxaria que eram estampados em ações contra a sua doutrina libertária, e consequentemente, com constantes punições como execuções e mutilações. Os quakers assim, na Inglaterra do século XVII, era um grupo socialmente marginalizado. Nesse contexto, o filho do almirante inglês Willam Penn, o qual possuiu um significativo papel na guerra anglo-hispânica nas Antilhas, iniciava ainda jovem uma admiração pelas ideias do grupo através da influência de Thomas Loe. Suas ideias sobre a liberdade eram potencialmente poderosas e influenciaram muito Penn filho desde sua adolescência, consolidando-se em seus valores principalmente após sua viagem para a Holanda, país que na época era um símbolo na construção de uma comunidade baseada na liberdade religiosa.

O jovem Willam Penn, após estudos em Paris e de direito em Londres, passou a frequentar as reuniões dos quakers, e apesar de possuir um significativo prestígio junto a nobreza em função de sua educação e ascendência, sofreu duros reveses na tentativa de conquistar a liberdade de pregação religiosa para todo o grupo, incorporando em sua biografia a visita a inúmeras prisões. Em uma dessas ocasiões, escreveu grande quantidade de textos que caracterizavam os princípios do quakerismo, cuja máxima mais conhecida foi “No cross, No crown” (“nem cruz, nem coroa”), uma manifestação clara contra o ataque à liberdade pela repressão religiosa e  pela nobreza, tornando claro que Deus poderia falar de diversas formas a cada indivíduo.

Os quakers na América


Inconformado com o insucesso na tentativa de estabelecer uma tolerância religiosa na Inglaterra e utilizando-se de seu bom trânsito entre a nobreza, conseguiu permissão para administrar um expressivo lote de terras e organizar um povoamento quaker na América, deixando a Inglaterra livre da pregação de suas ideias e aliviada com a possível supressão dos conflitos em seu território. Em 1681, o rei confiou (1) e autorizou sua posse às terras a oeste do Rio Delaware e deu o nome de Pennsylvania (“florestas de Penn”) ao local, em homenagem ao seu pai, já falecido. Seria mais uma tentativa de enviar para a América os grupos religiosos avessos ao culto oficial do país. Já para a cidade fundada por Penn, junto à primeira leva de colonos, foi atribuído o nome de Filadélfia, cujo significado em grego é “cidade do amor fraterno”. Oferecendo liberdade religiosa, atraiu um número impressionante de colonos  ingleses, mesmo não pertencentes do grupo dos quakers. A Pensilvânia recebeu ainda muitos alemães da seita menonita, os quais fundaram, próximo à Filadélfia a cidade de Germantown, ratificando que a concessão da liberdade sempre exerce um efeito de atração imenso nos indivíduos.

Durante a colonização norte-americana, foi natural surgirem vários conflitos com outros grupos religiosos. Os puritanos, que se intitulavam como os eleitos de Deus e comparando a América com sua Canaã, perseguiram os novos vizinhos, reeditando rivalidades que existiam desde suas pregações na Inglaterra. Os puritanos, que antes eram também perseguidos no Velho Mundo por intolerância religiosa, passaram a perseguir os quakers pelo mesmo motivo – o código moral nem sempre se mantém se atravessamos o outro lado da mesa. Penn e seu grupo, entretanto, lutaram novamente na América, contra essa nova perseguição religiosa mantendo seus ideais. Posteriormente suas conquistas foram admiradas por muitos, inclusive Voltaire, que citou seus feitos em seu Dicionário Filosófico:
“ (…) No ano seguinte Penn (1682) promulgou seu código de leis. A primeira foi a total liberdade civil (…). A seguinte foi uma proibição absoluta contra as taxas cobradas por advogados (…). A terceira foi a admissão de todas as religiões e a permissão para cada habitante adorar a Deus em sua própria casa, sem nunca tomar parte no culto público.”

O legado dos quakers na história


A alfabetização como ferramenta para a liberdade de interpretação da Bíblia, foi uma prática de muitos grupos de colonos na América, e não foi diferente com os quakers. A cidade de Filadélfia tornou-se um dos maiores núcleos urbanos das colônias americanas e do império inglês. Possuía excelentes índices de alfabetização, superiores inclusive, que a maioria das cidades da metrópole, e foi considerada como um dos locais de maior tolerância religiosa do mundo. Fiel aos ideiais de liberdade, Penn ainda insistia que as mulheres mereciam ter os mesmo direitos que os homens. Com seu conhecimento em Direito, estabeleceu uma constituição escrita que limitava o poder do governo, trazia um código penal humanitário e garantia várias liberdades fundamentais.

Um grande centro comercial floresceu na Filadélfia e com as instituições solidificadas pelos conceitos de liberdade construídos pelos quakers, principalmente pela figura de Penn, a cidade cresceu como centro intelectual e irradiador de ideias. As raízes da colonização da cidade influenciaram seu protagonismo no futuro país por muitos anos. Foi o local onde a Declaração de Independência foi assinada por Thomas Jeffferson quase 100 anos depois e posteriormente, com uma mesma janela de 100 anos, foi novamente sede da primeira exposição científica internacional dos EUA.

Mesmo realizando considerações sobre os diferentes contextos e pensamentos de cada época, é inusitado porém, que apesar de os quakers estarem na vanguarda nos pensamentos de liberdade, a instituição da escravidão só foi combatida de forma mais eficaz em meados do século XVIII. Influenciados pelo huguenote francês Anthony Bénézet e seu trabalho na educação de escravos, estabeleceram uma sociedade com vistas à abolição da escravatura, que viria ocorrer apenas 100 anos depois. Atualmente, os quakers possuem mais de 200.000 membros no mundo, com mais da metade desse total residentes nos Estados Unidos.


(1) Algumas fontes dizem que essa cessão deu-se em troca do cancelamento de uma dívida adquirida pelo governo



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