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Além dos 20%: a real taxa do desemprego e sua manipulação estatística

Como a manipulação dos dados da taxa de desemprego através das supostas metodologias científicas evita que saibamos que seu real número é acima de 20%.
Para o IBGE, o vinho é desnecessário

A real taxa de desemprego no Brasil está acima de 20% e a manipulação dos dados através de supostas metodologias científicas impede que a maioria da população saiba a verdade.


No caminho para seu trabalho, de dentro do ônibus ou em seu carro, você para em vários semáforos. Em um deles vê pedintes. Em outro, jovens que “lavam” os vidros em troca de trocados. Na parada adiante, artistas de rua, cujo pequeno show é um convite a outra doação. Você, uma pessoa dotada de senso lógico, imagina como seria bom se houvesse oportunidades de emprego para essas pessoas, onde elas pudessem se desenvolver dignamente e ganhar seu próprio sustento. Mas para o IBGE não tem nada de errado. Essas pessoas não são consideradas desempregadas. A mesma situação ocorre com as pessoas que não aceitam trabalhar com carteira assinada para não perder o Bolsa-Família (sim, elas existem, pois já presenciei essa situação mais de uma vez). E o raciocínio também vale para aquela pessoa que faz bicos cortando a grama da sua calçada, assim como os estudantes que nem estudam ou trabalham, que compreendem quase 1/4 dessa faixa etária.

Ou seja, todos os casos citados acima e mais muitos outros que o leitor deve conhecer, não entram para a composição do índice oficial de desemprego. São um “nada” estatístico. O termo utilizado para o IBGE para classificar essas pessoas é “desalentado”, retirando delas o estado de desempregado. Simples assim. Para a estrutura burocrática do governo, é sempre melhor eliminar a febre quebrando-se o termômetro.

Para calcular a taxa de desemprego, O IBGE divide a população desempregada pela população economicamente ativa (PEA).  A população desempregada, ou desocupada, são as pessoas que procuraram efetivamente um emprego nos últimos 30 dias. Somadas às pessoas que estão efetivamente exercendo um trabalho, compõem a PEA. Os “desalentados”, o “nada” estatístico, não entram em sua constituição.

Por outro lado, para calcular as pessoas empregadas, vale tudo. Qualquer pessoa que fez um “bico” qualquer (e recebendo um valor irrisório) por pelo menos UMA hora na última semana (!!!) é considerada uma pessoa “empregada”. Valem também trabalhos voluntários. Assim, se você conhece uma pessoa que ajuda a quermesse da igreja por uma hora aos domingos mas não possui um emprego, ela é considerada pelo IBGE uma pessoa empregadíssima! A defesa que muitas pessoas fazem da economia do país com base nesse indicador é portanto, derivada de uma metodologia insana. Ou risível para os mais bem humorados.

Além disso, a pesquisa é feita em apenas seis regiões metropolitanas. Todo o resto do país fica de fora. O próprio IBGE reconheceu que esse critério limita a interpretação dos resultados, e começou a utilizar uma base mais abrangente, da PNAD, evidenciando uma taxa 30% maior para o desemprego de 2013 (7,1% contra 5,4%), mas mesmo assim longe da realidade. O lado sombrio é que essa taxa, cuja única mudança metodológica é ampliar o universo dos entrevistados, está tendo sua divulgação proibida pelo governo*. Ano de eleição, é muito mais cômodo apresentar uma taxa de 5,4% do que 7,1%. Inicia-se assim, a consolidação do aparelhamento político dos órgãos oficiais de pesquisa, como ocorre com nossos vizinhos sul-americanos… O porquê de a imprensa não estar divulgando isso de forma mais enfática é um mistério…

De qualquer forma, o aparelhamento do IBGE e do IPEA não é novidade aqui nesse blog, uma vez que escrevi em Fevereiro: Vote no PT e conquiste uma Venezuela só para você. A água continua fervendo.

Existe ainda outra pesquisa divulgada no Brasil pela Fundação Seade e o Dieese, que possui uma metodologia menos pior, baseada na Organização Mundial do Trabalho e que mostra valores maiores: 10,3% em 2013, já quase o dobro do índice oficial. Mas, novamente, ainda distantes da realidade. Como, então, calcular então a taxa de desemprego real?

O editor do site Mises Brasil, Leandro Roque, fez há um tempo atrás um cálculo utilizando os próprios dados do IBGE, onde somou-se todas as classes de pessoas que não possuem um emprego de fato e não entram para o cálculo da taxa. Os resultados apontaram um valor acima de 20% na época. Sim, quase 4 vezes maior que a taxa oficial divulgada para ingleses, pessoas menos informadas e tontos acreditarem. E com o aumento dos beneficiados do Bolsa-família no último ano, esse número deve ter aumentado ainda mais…

E como um epílogo à toda essa argumentação, nesse ano a despesa do governo com o seguro-desemprego está batendo recordes, como pode ser visto nessa reportagem. Como isso seria possível em uma condição de pleno-emprego?

Se você é uma das pessoas que, apesar de reconhecer os enormes problemas que temos na economia, alenta-se no Brasil com uma das “menores” taxas de desemprego do mundo, é hora de repensar seus critérios e seu modelo mental por dois motivos. Um pelo mais óbvio e que foi citado acima, representado pela manipulação dos números. E o segundo, por acreditar que um dos objetivos de uma política econômica é manter a taxa de desemprego baixa, enquanto que a meta principal deveria ser manter a produtividade crescente. Baixas taxas de desemprego viriam como uma consequência. Mas essa discussão é um assunto para outro momento...

* Em Junho o IBGE voltou, ao menos provisoriamente, a divulgar a taxa pelo PNAD.




Comentários

  1. Vc é o que do Reinaldo Azevedo?

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    1. Absolutamente nada. Nunca o vi mais gordo.

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    2. Absolutamente nada. Nunca o vi mais gordo.

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  2. Excelente trabalho, André. Este seu artigo + o do Roque se complementam um ao outro no título DESEMPREGO NO BRASIL. Vou colocá-lo lá em forma de comentário

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    1. Obrigado Samuel! Sim, eu citei-o texto. Foi um excelente trabalho! Abraço!

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  3. Se o desemprego é gritante como se diz, onde está em termos práticos o desemprego? Eu não vejo mais. e grande parte das conquistas sociais é muito mais devido ao emprego.

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    1. No artigo você tem a resposta. Está no grupo dos nem-nem. Está no grupo das pessoas que não trabalham e vivem de Bolsa-família. Está entre os pedintes nos semáforos. Está entre as pessoas que continuam recebendo seguro-desemprego sem procurar trabalho. Se você acha que isso são "conquistas sociais", eu lamento sua percepção.

      Aliás, as despesas com seguro-desemprego estão batendo recordes. Qualquer avaliação "prática" dessa informação, não passaria por achar que vivemos em pleno emprego.

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  4. Seria interessante seu artigo se não fosse tão simplista. Você já perguntou a alguma pessoa no sinal se ela quer ser empregado de alguém? O porque de cálculo de desemprego ser estratificado? Pois é, antes de escrever bobagens, procure ler um pouquinho. Um dia, só por curiosidade, pergunte aos malabaristas de sinal, por que eles estão ali. Vê se eles preferem ficar num balcão de shopping ou ali.
    Abs.

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  5. O objetivo não é formular teorias sobre as preferências de ninguém. O objetivo é mostrar que essas pessoas não estão empregadas, não recolhem impostos, e não entram para compor a taxa de desemprego. Eu sou totalmente contra impostos, mas para o grande bigbrother brasileiro, que adora um estado assistencialista, tal recolhimento é necessário e sua falta não aparece em nenhum indicador, muito menos o da taxa de desemprego.

    Agora, convido-o a apontar alguma bobagem que eu escrevi. E não apontar bobagens que vc pensou, mas eu NÃO escrevi.

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  6. Então o malabarista de sinal prefere estar na rua, sob sol e chuva, se aventurando entre carros e motos, sofrendo toda sorte de preconceito, do que ter um emprego formal, acesso a crédito e experiências que podem lhe proporcionar crescimento?
    Ah tá!

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    1. Pois é Anônimo! Isso apenas atesta que não temos muitas oportunidades de emprego, mesmo que a "taxa" esteja baixa. Ratifica que todo o teor do artigo escrito é verdadeiro, ou seja, que a taxa de desemprego real é muito maior do que a alardeada.

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    2. Anônimo, você já conversou com quantos malabaristas de sinal? Ou vendedores de artesanatos?

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  7. Matéria feita com total falta de conhecimento. "Pessoas que não aceitam trabalhar com carteira assinada para não perder o Bolsa-Família" ?! Desde quando isso existe?! Não há nenhuma relação quanto a trabalhar ou não pra receber o auxílio. Ela tem que se encaixar em uma das situações econômicas do programa, pra ganhar míseros R$70,00 mensais. Na boa, quem vive com isso? E não é por filho como pensam não! Vê se busca informações cara, para de assinar veja, ver globo e escutar o que falam por aí.
    IBGE também não consideram pedintes, mendigos, flanelinhas como empregados. Consideram que eles tem uma renda proveniente de algum serviço, é levado em conta para parte da pesquisa, não para a média do desemprego que vemos no jornal todo dia. No mais, estuda filho!

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    1. É interessante como vocês, MAVs, são covardes e se escondem sob um manto da anonimidade para falar bobagens em blogs alheios. É um serviço sujo receber umas migalhas promovendo a desconstrução da realidade simplesmente com o intuito de defender esse governo vergonhoso que temos.

      "Pessoas não aceitam" SIM! Eu presenciei isso! Se fossem trabalhar a renda familiar subiria além do máximo possível para receber a Bolsa. Preferiam viver com ela fazendo outros bicos SEM carteira assinada, o que não formalizaria oficialmente uma renda.

      Não é por filho? Ora, o benefício é elegível através de uma renda per capita, ou seja por pessoa! Ou filho não é pessoa?

      Mendigos, etc: foi exatamente o que eu disse. O IBGE NÃO considera essas pessoas para o índice de desemprego se elas não estão procurando emprego. Por isso que o índice é numericamente uma falácia.

      Amigo, eu ia deletar o seu comentário, mas fiz questão de deixar aqui para os futuros visitantes perceberem como a militância virtual petista é burra e mal intencionada, e possui o intuito apenas de denegrir a verdade em prol de um governo que está liquidando o país. Devolvo a sugestão: estuda, filho!

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    2. Não é questão de covardia. Privacidade e segurança são coisas que zelo. Não sou petista, nem mesmo votei em petistas. Apenas achei absurdo generalizar as informações. Ter pessoas que usam de má-fé o serviço não quer dizer que ele seja ruim. Eu quis dizer que a pessoa não precisa obrigatoriamente ser desempregada para receber bolsa família, e que não recebe um beneficio a mais por filho, é apenas um benefício desde que tenha renda per capita até R$77,00 ou até R$154,00 desde que tenha gestantes, nutrizes, crianças ou adolescentes entre 0 e 17 anos. Pode acumular dois benefícios desde que tenha os dois requisitos, mas não é como a maioria pensa: tenho 10 filhos, vou receber um bolsa família por cada cabeça.
      O IBGE tem indicadores, dos quais em alguns mendigos entram e em outros não. Considerando qualquer um deles a situação do país em termos de trabalho está razoável se comparada com outros países e com outros anos de crise. Não concordo, nem defendo esse governo em específico. Defendo que o Brasil não é um país tão ruim como pensam. Precisa sim de melhorias, mas temos que analisar melhor algumas informações. Desculpa se fui ofensivo.

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    3. Desculpas aceitas, Anônimo. Agora vc postou sua opinião de forma concisa, educada e mais clara. E perceba, que não existe no artigo, contradição sobre as afirmações que vc fez sobre as regras do BF. A ênfase, entretanto, é colocada a partir das lentes que usamos para enxergar a situação.

      Sobre o Brasil não ser tão ruim, não é o tema do artigo. O tema é: o indicador de desemprego é uma farsa. E o artigo fala exatamente sobre essa farsa. Não caberia a mim analisar o Brasil em outros aspectos. Se vc perceber, o BF foi apenas uma ilustração, dentro desse tema.

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    4. Entendo o seu ponto de vista no artigo. Ainda estamos um pouco no calor do momento dos debates, mesmo pós eleições, rs. Por isso me retratei. Sucesso!

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  8. E quando esse indicador não o foi???

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    1. Seria interessante termos os dados completos para comparar sua evolução histórica. Mas sim, essa é uma condição atual.

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  9. O comentário do amigo acima é válido, muitos pessoas não procuram "empregos formais" porque não gostam de trabalhar para os outros, porém ganham dinheiro de outra forma e movimentam esse dinheiro com seus gastos ou investimentos, concordo que a taxa do IBGE é ruim, mas não chega ao ponto mencionado no artigo.

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    1. A crítica pode ser válida, mas apenas se você leu o artigo do Mises citado nessa página. Lá aparece com detalhes como a taxa de mais de 20% foi calculada. A partir disso, vale citar os motivos que considera que ela não chega ao ponto mencionado no artigo.

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