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Ciclos e procrastinação: as armadilhas do calendário

Ciclos - as armadilhas do calendário e a procrastinação
O calendário, com seus ciclos, pode tornar-se uma armadilha

Os ciclos em nossa vida são legitimados pelo conceito do calendário e podem ser grandes pretextos para o triunfo da procrastinação.


Na minha viagem ao Sudeste Asiático fui presenteado com visões sem fim de campos de arroz, principal cereal utilizado na alimentação desses países. Memórias de um livro lido trouxeram à mente informações de que a cultura do arroz não possui ciclos no plantio, isso é, a terra mantém-se permanentemente em uso. Diferentemente, na Europa, com a cultura predominante do trigo e cevada, existia um intervalo, um período para descanso do solo e uma recuperação para a (re)mineralização do solo, como aprendemos no colégio nas aulas de Idade Média (cultura de “pousio”, lembram-se?). E esses fatos históricos influenciaram historicamente o trabalho da sociedade humana nos extremos desse planeta. Na Europa e posteriormente na América colonizada, a ideia de “férias anuais”, da necessidade de recuperação do indivíduo, está muito mais amalgamada na rotina do que no Oriente, que possui férias mais curtas, tanto para o trabalho como para o estudo. O objetivo aqui não é tentar definir o que é  mais produtivo, mas exemplificar como os ciclos da da natureza pode influenciar toda uma sociedade.

É o típico caso do Rio Mekong, influência respeitável no Sudeste Asiático. É impressionante a variação de nível que o mesmo apresenta entre os períodos seco e chuvoso, observado principalmente no Laos e comentado nas postagens de Don Det e Vientiane. A definição desses ciclos pela natureza faz com que toda uma população viva em função de sua cheia, construindo casas elevadas, escavando açudes e aproveitando margens férteis para plantar culturas temporárias, como a batata e o tomate.

Possuir uma vida em função dos ciclos ditados pela natureza, onde sofreremos consequências caso não nos adaptemos é algo natural, e ocorre em diversas partes do mundo. Mas e quando nós decidimos que devemos agir em função de um ciclo que não está diretamente ligado às nossas decisões?

Esse ciclo, elegantemente criado através da história e baseado nos movimentos de translação e rotação de nosso planeta, é o notório “calendário”. Os povos que o criaram, em suas mais diversas formas, em diferentes momentos e por justos motivos, como definir períodos de estações climáticas e as influências na agricultura, talvez não imaginariam que um dia poderíamos usá-lo inconscientemente contra nós mesmos, na medida em que deixamos de efetuar decisões importantes na nossa vida em função de constantemente aguardar um “recomeço”, algo que o calendário nos proporciona regularmente em função de sua ciclicidade. Vamos cuidar da saúde ou estudar uma nova língua somente quando as férias chegarem. Ou ainda mudar alguns comportamentos, como ser útil à sociedade ou poupar para nossa liberdade apenas após a virada do próximo ano… 

Essas oportunidades de recomeço fazem com que nos esqueçamos que nossa vida é uma linha contínua, e que nunca podemos voltar ao ponto em que estávamos anteriormente. Sim, essa ideia tem algo de implacável e mostra a finitude de nossa existência, mas ela é mascarada pela perpetuação do conceitos de ciclos presentes no calendário, cujo constante sopro em nossas mentes insinua que nossas decisões adiadas não verterão consequências à nossa vida em função desse suposto recomeço eterno. Mas verterão! Isso apenas nos traz tranquilidade a curto prazo, mas como fingir sempre que o futuro nunca se tornará o presente?

Existem muitos ditados e ensinamentos sobre a procrastinação, mas o melhor ponto é conscientizar-se que os ciclos presentes no calendário, nesse caso, não nos ajudam. Eles fornecem apenas um conforto provisório de que novas oportunidades sempre existirão mais à frente. Mas ter-se em conta que nossa vida não é cíclica, e sim linear, pode ajudar-nos a não deixar para o amanhã o que pode ser iniciado hoje. Ditado simples e eficiente.

Mais reflexões do blog nessa página.

Comentários

  1. Oi André,
    Seus comentários são sempre muito interessantes; suas reflexões sobre a vida são belíssimas e muitas, como escrevi em outro post recordam frases de Buda e esta de hoje lembrou uma frase de Lama Michel.
    Como sabe, sempre fui gostei de Filosofia em geral e a Filosofia Budista também sempre me encantou.
    Já havia lido um livro de Lama Michel e outro de Lama Gangchen, mas, só conheci pessoalmente Lama Michel em Dezembro de 2012 e a semana passada Lama Gangchen esteve aqui e os dois juntos fui tudo de bom...
    São seres muito especiais e me sinto cada vez mais atraída pelos ensinamentos deles.
    Desculpa! Escrevi muito outra vez, mas, é porque gosto de ler seus escritos e acabo me empolgando...
    Segue a frase de Lama Michel que entendi que tem muito a ver com suas reflexões:
    "Viver o presente é ter clareza a cada dia de que a vida não é longa, todos irão morrer e não sabemos quando. Então temos que viver cada momento da melhor forma possível. Todos no fundo sabemos o que é correto ou não".
    Beijos!!!

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    Respostas
    1. É bem isso Nina! Viver o presente é também saber e tomar as decisões no momento, sem procrastinações, de forma a tornar nossa trajetória mais rica e substancial.

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    2. E obrigado sempre pelos comentários! ;-)

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  2. E aí André... excelente reflexão.. e obrigado pelo ensinamento. Grande abraço.

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    Respostas
    1. Obrigado amigo desconhecido! Grande abraço!

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