Dias 59 a 63 da viagem: Pokhara, Nepal e o trekking próximo ao Annapurna

Relato da viagem à Pokhara, seu lindo lago Phewa, no interior do Nepal e o trekking, às margens do Monte Annapurna, na cordilheira do Himalaia.
Uma das paisagens na estrada para Pokhara

Relato da viagem à Pokhara, seu lindo lago Phewa, no interior do Nepal e o trekking, às margens do Monte Annapurna, na cordilheira do Himalaia.


Após esse dia em Khatmandu, peguei o “tourist bus” para Pokhara. O local de saída é o mesmo para todas as companhias e bem próximo ao Thamel, o bairro turístico da cidade. Todos os ônibus saem juntos, às 07:00hs. Seriam apenas 200km, mas, pasmem, percorridos em 7 horas. Se eu fosse de ônibus local, seriam 12 horas. Algo impensável em qualquer lugar com um mínimo de infraestrutura de transportes. A estrada realmente é muito ruim, sinuosa e perigosa. Atravessa na maior parte do caminho, margens montanhosas e profundos vales. E os motoristas também não são um primor em segurança defensiva. Os ônibus chacoalham absurdamente devido à má condição do asfalto, e a poeira se faz presente de forma demasiada. Percebi isso principalmente no retorno, quando o tempo estava mais seco. O ônibus pára por duas vezes para lanche e almoço antes de chegar em Pokhara. O terminal era bem próximo do meu hotel, mas em função do peso e cansaço, rachei um táxi com um alemão com quem vim conversando no ônibus.

O Hotel Yeti é um bom hotel. Ambiente agradável, bonito, bom quarto com banheiro, água quente nos horários pré-programados, mas sofre como qualquer outro com a falta de energia elétrica constante no país: são cerca de 10 a 12 horas de racionamento diário. Eles possuem uma rede alternativa de energia que mantém algumas funções ligadas (interessante é que a wi-fi participa dessa rede), mas as tomadas para recarregar o laptop e celular não estão incluídas nesse “pacote”. E esse padrão é o mesmo tanto para o hotel que fiquei em Kathmandu, em Pokhara e nos locais do trekking. Não fico sem wi-fi, mas fico sem energia no laptop… Pela tarde andei na avenida em frente ao bonito lago Phewa. Essa área da cidade é bem agradável, o lago com seus espelhos d'água refletem com uma beleza incomum as montanhas e as nuvens no céu. O tempo não ajudou, estava com uma leve garoa, mas o próximo dia seria seco.

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O espelho no Lago Phewa
No café da manhã do dia seguinte, conheci um chileno que mora na Austrália e estava “preso” na cidade desde o dia anterior porque os vôos foram cancelados em função das condições climáticas. Também é uma opção vir pelo ar para Pokhara, mas no meu pacote as passagens de ônibus já foram incluídas. Além disso, o valor de US$100.00 para voar por meia hora achei bem abusivo. Talvez tenha perdido a vista das montanhas por cima, mas com o tempo fechado que estava, possivelmente não seria possível ver muita coisa. E sempre existe o risco de cancelarem os vôos, como aconteceu com o chileno. O meu guia, Karam, já havia se apresentado no dia anterior e ficou também no mesmo hotel. Após o café da manhã iniciamos nossa caminhada, junto com um grupo de franceses que estavam no mesmo hotel e mais um guia. Enfim, tornamo-nos um grupo grande e fizemos todo o passeio juntos.

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Quase em Sarangkot, com Pohkara e o lago Phewa lá embaixo
O primeiro destino seria Sarangkot, uma vila próxima à Pokhara com vistas espetaculares para as montanhas. Andamos quase 4 horas nesse dia, em um circuito pelas montanhas recheado de subidas. Foi a parte mais difícil do trekking. Com uma mochila nas costas relativamente grande, a dificuldade era multiplicada. A vila de Sarangkot é minúscula, e serve como um ponto de decolagem de paragliders. Possui em sua parte mais alta um mirante onde é possível ver de forma privilegiada tanto o nascer quanto o pôr do sol. Nesse último, não tivemos sorte: nuvens encobriram nosso astro-rei. Já no dia seguinte, madrugamos para não perder seu nascimento. E aí assim, valeu a pena. Sobre a guest house que ficamos, eu nunca achei que teríamos algum conforto nas montanhas, mas o quarto foi muito bom. Apenas o banheiro é compartilhado. Porém, nessa noite de baixa temporada havia apenas nosso grupo e uma família de japoneses hospedados, então não houve problemas. Temos porém que acostumar com o horário da água quente, pois os aquecedores solares a mantém aquecida até no máximo 19 hs. Mas em si, o local era bem agradável. Um trekking confortável!

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South Annapurna nos primeiros raios de sol
No segundo dia, após o espetáculo do nascer do sol nas montanhas, deixamos Sarangkot e caminhamos cerca de 7 horas, com um almoço de intervalo onde comemos a típica comida nepalesa (daal bhaat tarkaari, um arroz com lentilhas e vegetais). Caminhamos mais tempo, mas o caminho foi mais plano, o que facilitou a progressão. Passamos em Australian Camp até chegarmos em Dhampus, um vilarejo ainda menor do que Sarangkot, ao lado dos picos nevados em torno da parte sul do Annapurna. A guest-house dessa noite era um pouquinho mais rústica, mas mesmo assim confortável para passar uma noite.

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Escolares próximos de Damphus
Durante as caminhadas entre as vilas, além das trilhas pelas montanhas, passamos por várias pequenas estradas onde observamos o modo de vida das pessoas que vivem na área rural do Nepal, que compreendem mais de 80% do total da população. Muitas pequenas plantações de milho, arroz, batatas, colza (canola) e mostarda encontram-se a lado das simples habitações. Não existem, em função das irregularidades do terreno, vastas áreas plantadas. As plantações são majoritariamente familiares e restringem-se em pequenas propriedades. Nada de mecanização: vimos bois serem usados para arar a terra e agricultores abrindo covas para a semeadura. A produtividade deve ser baixíssima. As propriedades possuem ainda búfalos, carne de consumo normal nos restaurantes, cabras e galinhas. Entre os habitantes, vimos muitos escolares indo para as escolas, mesmo no final de semana, e muitas, mas muitas crianças que praticamente sem exceção nos cumprimentávamos com um alegre “namastê” ou um ocidentalizado “hello”. Algumas vinham falar conosco e mostravam um afiado inglês na comunicação. Até uma flor eu ganhei de uma menininha rs. Encontramos também um grupo de nepalesas cortando e posteriormente, carregando lenha para aquecimento. É incrível o peso que as mesmas carregam nas costas. Respeckt! Presenciamos ainda durante o trekking duas festas de casamentos locais. Enfim, uma agradável imersão cultural, longe do bafafá turístico.

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O dia a dia pesado em meio aos picos nevados
No terceiro dia, descemos a montanha em uma caminhada de mais de duas horas. A descida era bem íngreme, em degraus, o que atrasou e dificultou as passadas. Possíveis grandes problemas para joelhos sensíveis. Mas chegamos na estrada ainda antes do horário de almoço para voltar à Pokhara. Caminhamos mais um pouco e tomamos o primeiro de três ônibus para chegar até o hotel, já de tarde. Esses ônibus, urbanos. Uma aventura. A última vez que andei em algo parecido foi na Bolívia, onde até cabras estavam entre os passageiros. Aqui não chegou a tanto, mas teve quem levara dentro toras de madeira, que é o principal combustível usado para produção de calor no país, disputando espaço junto a uma infinidade de pessoas. O curto trekking foi então finalizado, e valeu pelo conhecimento da região rural do Nepal, pelas grandes vistas, pelo nascer do sol em meio aos picos nevados e pela oportunidade de presenciar a expressão da vida nos vilarejos. Não tivemos visões, porém, de rios e cachoeiras, que são muito presentes na rodovia Khatmandu-Pokhara. Achei que veria algo. Até passamos uma ponte com um pequeno curso de água, mas que estava muito fraco em função da estação. Nas monções, segundo o guia, o fluxo é grande.

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Pokhara: o Himalaia circunda a cidade
Ainda deu tempo de conhecer um pouco a cidade de Pokhara até o final da tarde, e escolhi uma região não turística para andar. Uma primeira impressão que tive do Nepal em Kathmandu, e que se manteve em Pokhara, é que as cidades, apesar de pobres e simples, são bem mais limpas do que as cidades indianas. Sim, existe bem mais lixo que estamos acostumados a ver, mas parece que aqui eles não são simplesmente jogados em qualquer lugar. Há áreas específicas e eles são ensacados, parecendo esperar uma coleta. Percebi posteriormente, que isso entretanto, ocorre apenas nas regiões centrais. No retorno à Kathmandu passei pela periferia da cidade e uma “little Índia” surgiu de novo na minha frente. Nem tudo é perfeito… As cidades são, ao menos mais ocidentalizadas no que diz respeito ao comércio. É fácil encontrar um restaurante, um supermercado melhorzinho, farmácias vendendo produtos de higiene, etc. Nesse ponto, o viajante sente-se mais confortável. As construções são mais bonitas também do que na Índia. Existem vários prédios baixos de apartamentos, de três ou quatro andares, muito bonitos e que em geral, pertencem a uma mesma família. Quartos que estão sobrando são alugados a terceiros.

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Mais do lago Phewa
No dia seguinte, passei o último dia completo na cidade e conheci a área do lago Phewa, cuja superfície é possível observar de forma magnífica o reflexo das montanhas e do céu. Em alguns sites, há comentários de que é uma das mais magníficas visões do mundo. Consegui tirar umas fotos razoáveis, mas na internet há algumas magníficas, profissionais. Vale a pena dar uma olhada. Existe também um parque muito tranquilo em uma das extremidades do lago para momentos de contemplação. Ao fundo, um templo hindu muito bonito e bem conservado. Continuei a caminhada pelo sul e oeste, tentando alcançar a caverna Gupteswar e as cachoeiras Devis. Não consegui entrar em ambos, pois embora o preço seja irrisório (U$S1.50 para ambos) eles não aceitavam rúpias indianas, moeda que tinha no bolso. Não achei que seria muito interessante também. Vi algumas fotos pela net e além disso, o fluxo da cachoeira seria muito fraco nessa época. Mas o caminho até lá foi bem interessante, passando por uma área mais periférica e rural da cidade. Durante uns 15 minutos dois garotos me acompanharam fazendo um monte de perguntas sobre o Brasil. E esse contato vale muito mais do que visitar simples “pontos turísticos”.

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Cena urbana de Pokhara
De volta ao hotel e à realidade do suprimento de energia do Nepal, atualizei-me perante as notícias até a bateria do computador acabar. Como comentei anteriormente, a bateria acaba mas a wi-fi continua funcionando… Mas ok, não perdi muito. Afinal, no Brasil é carnaval. Ziriguidum da alienação! No dia seguinte cedinho voltei à Kathmandu, no mesmo estilo de transporte. Como dessa vez sentei na janela e o tempo estava bom, pude tirar algumas fotos do belo e perigoso vale que a estrada margeia. Fiz também um pequeno vídeo já chegando próximo do destino, para tentar passar um pouco da impressão da viagem. Algumas pessoas me perguntam sobre as demais fotos. Todas estão disponíveis no Google+. Porém, algumas vezes atraso um pouco para disponibilizar em função da lentidão da net para fazer o upload. Alegre. Posteriormente, coloquei algumas delas no Pinterest.

E por falar em vídeo, fica aqui também a sugestão de um belo vídeo feito por uma amiga e fotógrafa profissional que conheci na Índia, Andréa Ribeiro. Ele ajuda a passar um pouco mais desse pitoresco país.

Próximo post: Kathmandu e arredores.

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