Turismo de culpa: as garras da indústria do turismo de massa

Turismo de culpa: nas garras da indústria do turismo de massa
Sentir culpa por não fazer o que esperam de você?

Nossas viagens de culpa, alimentadas pela indústria do turismo de massa. Conscientes ou inconscientes?


Já li pela web alguns pensamentos sobre a diferença entre ser um turista e um mochileiro. Entre as definições do primeiro, uma delas fundamenta que sua maior intenção a partir do momento que sai de casa é voltar rapidamente e viver a viagem através das fotos tiradas, dos comentários aos amigos, enfim… não vive a viagem no seu momento. Vendidos pela indústria do turismo, um roteiro de visita de quinze cidades da Europa em vinte dias é um bom exemplo. Mas generalizações muitas vezes não são justas, pois existem diversos exemplos nas duas categorias. Mas, de fato, uma das consequências do turismo de massa são os roteiros programados sob medida para aproveitar ao máximo o pouco tempo que as pessoas têm para se entregar em uma aventura. O ponto é: sob medida para quem?

As pessoas em geral, são tentadas a visitar e marcar presença em todos os lugares fotografados e recomendados por guias de viagem, experts e conhecidos que já estiveram por lá.  Mas até que ponto participamos desse roteiro por curiosidade genuína ou uma obediência culposa? “Nossa, mas você foi lá e não viu a maior orquídea em solo rochoso da Ásia?”. Ora, será que o tamanho de uma orquídea faz parte das minhas questões internalizadas as quais eu procuro respostas?

Ou um viajante deveria atentar preferencialmente a não ser levado a usar seu tempo em algo que vai satisfazer mais o ego dos outros do que seus próprios desejos? Prefiro direcionar minha viagem dessa maneira, pois gosto de conhecer um pouco da cultura e do dia a dia dos lugares que visito. Misturar-se com as pessoas dentro dos ônibus e metrôs e fugir dos táxis é uma boa maneira de começar, mas causa arrepios a muitos. Passeios que acredito que estejam fora do contexto local, eu dispenso totalmente, como Disneyland em Paris, London Eye em Londres ou até mesmo Beachpark na nossa Fortaleza, joias da coroa da indústria do turismo de massa.

É notória a existência, para deleite das operadoras de viagem, de um esforço ativo na criação de pontos turísticos, a qual cria uma idealização vendável dentro da real cidade visitada. Uma construção para turistas, diferente da cidade onde os próprios moradores residem. O interessante é que sua concepção faz com que sempre estejamos envolvidos em um cenário com as mais variadas atrações possíveis, mas impossíveis de agradar em sua totalidade, um mesmo indivíduo. Essa indústria do turismo de massa é alimentada pelas visitas de pessoas coagidas psicologicamente a admirar uma infinidade de atrações muitas vezes sem ligação entre si ou com a localidade, e cujo prazer real de visita exige demandas dificilmente encontráveis em uma mesma pessoa. E é claro, fazer com que a culpa esteja presente caso o viajante não cumpra o roteiro sugerido.

Sim, o tempo disponível para a viagem interfere os dois lados dessa moeda. Porém, uma escolha que pode ser feita é “o que” visitar no tempo disponível. Tentar conhecer tudo de forma superficial e deixar um álbum de fotos mainstream registrado ou conhecer menos destinos, porém de uma forma um pouco mais profunda? Não existem respostas certas ou erradas, mas o propósito dessas observações é que devemos estar conscientes de que a cilada da indústria do turismo de massa sempre pode estar por trás de nossas escolhas. E ela quer de você, principalmente, tudo o que você poupou para fazer a viagem de seus sonhos...

Exercitemos, portanto, nossa liberdade de escolha. Cuidemos apenas, entretanto, para não tornarmos um escravo da liberdade. O conceito de liberdade pressupõe a ausência de dependência. Inclusive da própria liberdade. :-)

Mais textos de reflexão sobre viagens nessa página.



Comentários

  1. André, acho que uma viagem como a sua é muito mais interessante. Eu adoraria fazer algo assim! Não acredito que viagens com roteiro definido por uma agÊncia seja totalmente ruim, mas, não há tempo para conhecer de fato os locais e um pouco dos hábitos...Boa viagem meu querido! bjos

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    1. Maroca, é isso aí! Sem tempo ou com crianças (os dois juntos então...) não tem tanta saída rsrs

      bjus!!!!

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  2. Sou a favor da viagem "sem roteiro". Ou seja você faz aquilo que combina com você ,e não o que as pessoas estimulam que deve ser feito.
    Viajar sozinha tem essa vantagem.
    Blog está muito legal!

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  3. Que privilegio nosso de voce estar dividindo essa sua aventura com a gente. Muito obrigada! E quem sabe um dia qdo minhas pequerruchas crescerem eu sigo seus passos. Boa sorte e que voce descubra muitas alegrias durante esse tempo.

    E a proposito... london eye e beachpark: eu adoro :) Disney vai ficar pro ano que vem. As vezes nao da pra evitar o 'lugar comum', mas nao podemos nos resumir a isso, ne?

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    1. Ajudo elas a organizar o mochilão, Martita :-)!

      Então, eu acho assim: se vc faz por prazer seu mesmo, claro que é válido. Mas a crítica são para as pessoas que não sabem o que procuram na verdade e vão na onda, para satisfazer menos elas próprias e mais seu ego e a expectativa dos outros...

      E o 4ºQE por aí? Até onde isso vai rsrsr?

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